Mandrágora em Cascais
Estela Guedes - Editor TriploG
Sobre o espectáculo
Para Nicolau Maquiavel (1469-1527), um dos mais penetrantes e lúcidos pensadores políticos da humanidade, o mundo é o que é: - nele convivem maridos estúpidos como Nícias e mulheres virtuosas como Lucrécia, frades devassos como Timóteo, parasitas como Sóstrata e, por que não, jovens honestos como Calímaco.
Personagens centrais de A Mandrágora, eles não compõem apenas um retrato fiel e irónico da sociedade florentina do século XVI. Configuram, acima de tudo, a forma que Maquiavel escolheu para satirizar a corrupção da Itália de sua época e, principalmente, a corrupção da Santa Madre Igreja. Nesta comédia ele ataca os vícios e a imundíce em que seus contemporâneos estavam mergulhados e, da mesma forma como em O Príncipe, escreve uma obra que se mantém tão actual hoje, como há quinhentos anos.
Para mim (Cascais 1947), esta outra A Mandrágora é uma aventura que transporta imagens da obra de Maquiavel para um projecto estético que tem (também ele) por nome Mandrágora.
São as imagens que me interessam, não o discurso dramático. O discurso desta acção vale o que vale. Não é uma obra teatral, tão pouco um poema. É uma “COISA” construída por um “fazedor de coisas” - muito bem acompanhado, aliás, por uma equipa com quem tenho tido o prazer de fazer esta e as outras “coisas” (leia-se projectos anteriores): - a Rita, a Patrícia, o Bruno, o Marco, o Miguel, o Ricardo e agora os que chegaram de novo; a Sara, o outro Bruno (mais jovem) e o Gonçalo. Mais uma acção, portanto, que passa ao lado do que se convencionou chamar teatro. É muito divertido. Dá muito prazer construir estes objectos que vos apresentamos sempre que nos é possível.
Manuel de Almeida e Sousa
Mandrágora - um projecto cultural (Cascais 1979/2007)
Associação cultural é o nosso pseudónimo legal.
Mas somos mais que isso.
Somos um genuíno clube de esquina, o característico grupo português de reflexão e pesquisa preconizado por Agostinho da Silva.
Entrámos nos vinte anos de actividade ininterrupta.
Começámos com o impulso dado por outro português d’antanho, Emídio Santana. E tornámos também nossa, em parte, a herança do psiconauta esquecido, Manuel Grangeio Crespo. Todos eles desaparecidos desde há alguns anos.
Nós ainda não.
Espectáculos multi média, performances, exposições, publicações, o nosso trabalho tem sido apresentado por todo o país com especial incidência em Cascais (onde surgimos), Oeiras e Lisboa. Lá fora estivemos presentes em Espanha, Bélgica, Itália e Polónia.
Arranjámos sempre espaço para novos amigos. E connosco se iniciaram na criação artística pluridisciplinar mais de uma centena de jovens.
Tivemos várias promessas de cedencia de espaços - sede por parte de autarquias… (ainda não se concretizaram).
Se alguma vez esse sonho se tornar realidade, rapidamente o encheremos com as nossas vibrações místico - racionais.
Esperamos então uma ainda maior participação nos nossos rituais.
Para lá de todas as influências que tenhamos necessáriamente recebido, a nossa raíz mesmo é - Mandrágora: - Somos porque ainda estamos a ser.
Mandrágora
Mandrágora (1979-2007) Associação Cultural com raíz em Cascais, planta itinerante a aproximar-se perigosamente dos trinta anos vividos pelo país possível e noutros a convite, sem campo onde possa crescer livre, sem vaso onde possa desenvolver as suas raízes; procura não o aperfeiçoamento, mas uma “perfeição” que aboliu toda e qualquer barreira estética, ideológica, religiosa ou filosófica.
Autenticidade rima com intenção, não com estilo ou certeza, que teria muito mais possibilidades comerciais, políticas ou lisonjeadoras de autoridade de que está o mundo cheio…
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