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Floriano Martins

July 16th, 2006 by Estela Guedes - Editor TriploG

POESIA EM REVISTA
O franco-atirador está à solta!
Floriano Martins, poeta, ensaísta, editor, “construtor de pontes”, mostra parte de suas inquietações no programa Poesia em Revista, do Centro Cultural Banco do Nordeste. Amanhã, às 18, ele apresenta o seu Teatro Impossível, uma leitura plural e nada linear de texto, imagem e som, com participação de Ana Lee e Jorge Pieiro. Aberto ao público

Eleuda de Carvalho
da Redação

10/07/2006 01:43

“Esmolo as pétalas de tua sábia desilusão, algum verso escrito, o rosto dissipado de meu lívido engano. O tempo nos tem por
dois rafeiros de suas miçangas”
(Floriano Martins em Um encontro secreto)

O poeta mexicano José Ángel Leiva pensou que ele fosse um guerrilheiro, metido num bunker em alguma grande cidade da América do Sul, bombardeando de lá o mundo com feras palavras (muitas das vezes combinadas a imagens e gravuras de, entre outros chegados, Hélio Rôla). Acertou em parte. Floriano Martins, com sua barba de rebelde, sua boina guevariana, seus oclinhos, bem figura um guerrilheiro urbano mas não é da metrópole que ele envia seus petardos textuais. É daqui mesmo, do subúrbio de Fortaleza - que ele, mais por ironia que desdém, costuma chamar de “Fracaleza”. Poeta, ensaísta, crítico, tradutor, editor por conta e risco, Floriano conseguiu fazer o que muitos políticos vêm tentando em relação aos nossos hermanos, ao menos quanto à literatura. Em janeiro de 2001, convidado por Soares Feitosa, ele desenvolveu o projeto Banda Hispânica, um banco de dados permanente sobre poesia (e afins) que circula virtualmente no Jornal de Poesia, onde também está abrigada a revista Agulha (editada por Floriano e o poeta paulista Claudio Willer). De lá, passaporte para outras revistas literárias virtuais, como a Alforja (do México), ou a TriploV (de Portugal).

Floriano, o incansável, é responsável por antologias de poetas brasileiros para as revistas mexicanas Blanco Móvil e Alforja, além de ter feito, recém, uma coletânea de poemas de Drummond por encomenda de uma fundação venezuelana. É autor de Sábias areias, Alma em Chamas, Estudos de pele (os três de poesia). Escreveu El corazón del infinito. Trés poetas brasileÀos, livro de entrevistas publicado em Toledo, Espanha, em 93; Escritura conquistada (diálogos com poetas latino-americanos), também de entrevistas, publicado aqui mesmo em 98. Traduziu Federico García Lorca e Cabrera Infante para a Ediouro. Escreveu a biografia do músico Alberto Nepomuceno (edições Fundação Demócrito Rocha). Organizou ainda uma antologia de poesia surrealista latino-americana, publicada na Costa Rica.

Este ano, o poeta ajeita a mochila para eventos culturais em El Salvador e nas ilhas Canárias. “A verdade é que eu mesmo me sinto zonzo pelo quanto de coisas que a gente vem fazendo, direta ou indiretamente. Montamos uma antologia de poesia brasileira para publicação em Madri, eu com o José Geraldo Neres, e acaba de sair uma edição especial da revista Poesía, da Universidad de Carabobo, em Valencia, na Venezuela, toda dedicada ao Brasil e preparada por mim. Agora em setembro saem quatro antologias de poetas portugueses preparadas e prefaciadas por mim pela Escrituras, de São Paulo.

Até dezembro minha poesia recente, em grande parte inédita, sai em edições no México, no Chile e na Venezuela”, conta por e-mail. Por falar em conta, ele perdeu as contas de quantas palestras, recitais e mesas-redondas participou, nestes anos todos dedicados à arte e à cultura. Mais conhecido mundo a fora do que mesmo em seu país (que dirá no Ceará), o franco-atirador ainda arranja tempo para tomar legítimos runs, tequilas de Guadalajara, entre amigos, num plá que mistura futebol, cinema, música, poesia e prosa em doses alopradas.

Amanhã, os amantes da literatura e das artes, do surrealismo, da fotografia, do vídeo, da colagem, da canção - e os curiosos em geral - podem desfrutar 90 minutos da prosa, da poesia e outros biscoitos finos no Teatro Impossível de Floriano Martins, para o programa Poesia em Revista do Centro Cultural Banco do Nordeste. Participações especiais de Ana Lee (voz e canto) e Jorge Pieiro, com trilha musical de Francisco Casaverde. Teatro Impossível é também o título de livro ainda inédito de Floriano, que também lança, este ano, um CD em parceria com o músico Mário Montaut. Todo o espetáculo será filmado e vai virar DVD.

O POVO - Teatro Impossível é uma mostra dos caminhos por onde você expressa a arte, tem poemas, canções, fotos, colagens, vídeo. Por que o título?
Floriano Martins - A mostra reflete uma condição mestiça, de vivência e defesa estética. É esta minha inquietude por abraçar muitas linguagens, e provocar o limite máximo de suas impossibilidades. Não me agrada a idéia de experiências estanques, vidas retardadas por repetições, pequenos vícios domésticos da arteà O título é emprestado de um livro, porém na mostra a impossibilidade cênica que evoca o livro é de certa maneira confundida pelos sinais vitais oriundos de várias instâncias. Mesmo assim, persiste um teatro impossível, a relação abortada entre arte e vida, um equívoco de cena, onde uma parte deixou de ser representação da outra.

OP - Serão 90 minutos, uma partida de futebol…Adianta para nosso leitor como será a apresentação, uma performance? Uma leitura poética com a voz de Ana Lee e trilha do Francisco Casaverde?
Floriano Martins - O termo performance atingiu o limite de seu desgaste. Já de muito é utilizado para qualquer urro ou gesto inconseqüente. Nosso entendimento do novo ainda gira em torno do esgar iconoclasta característico das vanguardas na primeira metade do século passado. A analogia entre tradição e ruptura, tão bem evocada por Octavio Paz, foi mais citada do que praticada. Teatro Impossível, a rigor, é uma leitura poética, como bem situas. Contudo, avança em relações possíveis do poema com outras instâncias. Ana Lee participa tanto na leitura de letras de canções quanto no canto. Uma presença física que teremos em palco é do produtor Jorge Pieiro, que divide comigo a leitura de trechos de uma colagem dramática que fiz de textos meus e de William Burroughs. Não escondo o jogo, posso dar até mesmo a seqüência do roteiro que move a mostra, porém o que importa é este risco delicioso de mesclar as linguagens e que espero resulte também em algo saboroso para o público que se dedique a provar novos pratos. Será uma surpresa para mim também.

OP - E o livro Teatro Impossível, quando vai sair? Você vai mostrar algo dele na apresentação de amanhã?
Floriano Martins - Sai este ano, na Venezuela, na tradução de Marta Spagnuolo. A mostra no CCBN se utiliza do título e inclui alguns dos poemas. No livro o que temos são textos, em boa parte prosa poética, onde a impossibilidade cênica é definida não pelo acento metafórico, mas antes pela crítica de um afastamento cada vez mais intenso nas relações entre arte e vida. Na mostra no CCBN a pegada é outra, porque ali já estamos apontando e praticando outros caminhos. A minha leitura é sempre crítica. Gosto de riscos; não entendo poeta que se acomode ao enfado.

OP - Como você dá conta de tantas linguagens? O fundamento é o texto, aqui em sentido o mais amplo possível - uma teia de signos decupável pelos sentidos?
Floriano Martins - Na verdade eu dou conta de apenas uma linguagem, que é essa minha inclinação para a mescla. Tenho que aprender a lidar com isto e não pensar naquela cornucópia de mil fractais e seu vício enciclopédico. O fundamento é a expressão. Se eu mesclo linguagens e digo que o fundamento é o texto, de cara já estou matando meu projeto. Entendo a tua idéia de texto, sim, e até poderia concordar. Mas vamos lá: dou seqüência a toda uma aposta de vida, torço por mim, mas não faço idéia de onde isto vá dar. E nem me importa.

SERVIÇO
Teatro Impossível - poemas, colagens, imagens e sons de Floriano Martins. Participação especial: Ana Lee, Francisco Casaverde e Jorge Pieiro. Terça, às 18h, no Centro Cultural Banco do Nordeste (rua Floriano Peixoto, 941 - Centro). Aberto ao público. Inf.: 3464.3178.

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