TEOLINDA GERSÃO NO INSTITUTO CAMÕES
Estela Guedes - Editor TriploG
Camões, 18 de Maio de 2006
A literatura portuguesa em dois «ensaios apaixonados»
Cerimónia de apresentação das obras
«Dois livros escritos sob o signo da paixão», foi como Annabela Rita apresentou Retratos Provisórios, ensaio sobre a obra de Teolinda Gersão escrito em co-autoria com Maria de Fátima Marinho, com base numa selecção de textos feita pela própria autora, e Emergências Estéticas, uma análise das «imagens literárias» produzidas por Almeida Garrett, Cesário Verde, Sophia de Mello Breyner e, novamente, Teolinda Gersão, que faz emergir a vasta e diversificada memória cultural e estética (literária, pictórica, musical, etc.) por eles partilhada.
Da esquerda para a direita: Teolinda Gersão, Simonetta Luz Afonso, Annabela Rita, Maria Teresa Furtado e Artur Anselmo
«Caso talvez único no ensaísmo recente», assim classificou Artur Anselmo a autora de Emergências Estéticas, «Annabela comporta-se como se tivesse uma câmara com a qual atravessa as obras dos escritores escolhidos, descobrindo, em cada uma delas, a personagem de todos os livros, modelos que vão mudando de roupa, de idade, de circunstâncias, que evoluem com os autores». A visão alargada do texto literário, lido aqui em relação com outras artes, revela, na opinião de Artur Anselmo, «uma mundivisão em que o texto é o pretexto», ponto de partida para a análise dos temas literários e da forma como foram trabalhados nas várias artes ao longo dos séculos.
Da esquerda para a direita: Teolinda Gersão, Simonetta Luz Afonso e Annabela Rita
Trata-se, assim, de uma «viragem em relação à crítica literária canónica», que procura «não tanto inserir o texto no seu lugar próprio, muito perfiladinho, mas realizar as mais inesperadas incursões à volta do texto», proporcionando uma visão «caleidoscópica» do mesmo. «Este associativismo psíquico só existe quando há uma personalidade cultural muito marcada, a mesma que lhe permite passar do clássico para o contemporâneo, de Luís de Camões para Casimiro de Brito, com uma enorme facilidade.»
«Sinto-me tentada a continuar», respondeu Annabela Rita, professora de Literatura Portuguesa da Faculdade de Letras e mentora das colecções «Faces de Vénus» (poesia) e «Faces de Penélope» (ficção), publicadas pela Roma Editora no âmbito do projecto Faces da Literatura Lusófona, desenvolvido pelo Centro de Estudos de Culturas Lusófonas da Universidade Nova de Lisboa com o patrocínio da Fundação para a Ciência e Tecnologia e do Instituto Camões.
Maria Teresa Furtado, a quem coube apresentar Retratos Provisórios, lembrou o grande acolhimento internacional dos livros de Teolinda Gersão, largamente traduzidos e estudados, alguns dos quais premiados e adaptados ao teatro. «Essa relação estreita entre os meus livros e o teatro está bem patente na análise de Annabela Rita, intitulado ‘A palavra Encenada’», considerou, por seu lado, Teolinda Gersão.
A partir do olhar da crítica, nomeadamente dos textos de Fátima Marinho, a escritora confirmou ainda a «coerência interna» de uma obra inaugurada aos 14 anos com a publicação do volume de contos Liliana. «Temas como a procura da identidade, do sentido da vida, a rebeldia, a solidão na sociedade da informação em que vivemos, o silêncio e a literatura como quebra do silêncio».
Professora jubilada da Universidade Nova de Lisboa em 1995, data em que passou a dedicar-se exclusivamente à escrita literária, Teolinda Gersão sublinhou o interesse de uma colecção de ensaios que pretende divulgar livros e autores lusófonos junto do grande público, aliando o aprofundamento da análise a uma linguagem acessível. «Fico muito contente quando as instituições públicas e privadas apoiam a divulgação da literatura, o eterno parente pobre das artes em Portugal».
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