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Oscar Wilde - A paixão de uma vida

May 14th, 2012 by Luís Reis - Editor TriploG
» Por: Paulo Azevedo Chaves - Interpoética

 “Algo belo é uma alegria para sempreâ€
John Keats

Nascido em Dublin, em 1854, filho de um médico famoso e uma escritora, desde criança Oscar Wilde evidenciou sua vocação literária sempre se cercando de livros e intelectuais. De família rica, teve oportunidade de cursar os melhores colégios e a famosa universidade de Oxford, na Inglaterra.

O espírito rebelde e inconformista, a inteligência brilhante, o humor fino e sarcástico logo fizeram com que sobressaísse entre os jovens de sua geração. Em 1885, casou-se, em Dublin, com Constance, filha de um advogado irlandês de renome.

Sua obra literária, a partir de então, é vasta e diversificada. Ensaios, contos, novelas, peças de teatro construíram uma sólida reputação entre os seus contemporâneos. Em 1891, lançou uma de suas obras mais famosas – O Retrato de Dorian Gray, cujo personagem-título se mantém sempre jovem e belo através das décadas, as marcas da passagem do tempo e de seu espírito depravado e cruel se evidenciando numa pintura que o retratava. O final é tão inesperado quanto trágico: Dorian apunhala a hedionda figura do quadro e, no mesmo instante, morre incorporando as características fisionômicas do modelo retratado, enquanto a figura na pintura readquire a antiga beleza impregnada de inocência.

Já então rumores sobre a sua homossexualidade eram assunto de fofocas constantes nos Salões aristocratas ingleses. Seu envolvimento com o belo Lord Alfred Douglas eram tão notórias que o pai do jovem, o marquês de Queensberry, lhe endereçou uma carta desaforada, proibindo-o de ver o filho. Em resposta, Wilde teve uma atitude inesperada e estúpida: processou o marquês por calúnia e difamação. Mas como tinha culpa no cartório, resolveu desistir do processo. Tarde demais. Provas contundentes de seu relacionamento com Bosie (como tratava na intimidade Alfred Douglas) começaram a aparecer e Wilde foi a julgamento.

Na Inglaterra, a prática homossexual sempre foi muita difundida em todos os estratos da sociedade. Mas o país também era conhecido pelo rigor de suas leis contra o homossexualidade. Diferentemente de outros países europeus, em que só a sedução de menores de idade era punida com rigor, a prática homossexual envolvendo adultos era – e continuou a ser até anos recentes – punida na Inglaterra vitoriana com a pena de reclusão por dois anos com trabalhos forçados. É um paradoxo que só a proverbial hipocrisia inglesa pode explicar: um povo tão dado às relações entre as pessoas do mesmo sexo ser também tão severo na punição daqueles que praticavam “o amor que não ousa dizer o seu nome†(expressão criada pelo próprio Wilde). Assim, no auge da fama, o autor de mais prestígio na Inglaterra de sua época é condenado a dois anos de reclusão em Reading. Em sua sentença, o juiz diz a certa altura: “… É o pior caso que jamais julgueiâ€. A paixão dos ingleses por seu escritor mais famoso e ilustre se transformara em ódio. Seus livros são recolhidos das livrarias, suas comédias são retiradas de cartaz nos melhores teatros londrinos, seu patrimônio é leiloado para pagamento das custas do processo e de seu advogado. Mas em nenhum momento Oscar Wilde se acovardou ou mostrou arrependimento por seus affairs com rapazes ingleses e seu caso de amor com Bosie. Muito pelo contrário: no julgamento fez uma defesa apaixonada do amor entre pessoas do mesmo sexo . Vale à pena ler um trecho: “…O amor que não ousa dizer seu nome neste século é a grande afeição de um homem mais velho por um homem mais jovem, como aquela que houve entre Davi e Jônatas, o amor que Platão tornou a base de sua filosofia, o amor que se pode achar nos sonetos de Michelangelo e Shakespeare. Ele é bonito, é bom, é a mais nobre forma de afeição. Não há nada que não seja natural nele. Ele é intelectual e repetidamente existe entre um homem mais velho e um homem mais novo, quando o mais velho tem o intelecto e o mais jovem tem toda a alegria, a esperança e o brilho da vida à sua frenteâ€.

Entretanto, os inimigos de Oscar Wilde não prevaleceram. Destruíram o homem físico, mas não a perenidade de seu prestígio, de seu valor literário e de sua paixão latu senso. Ele defendeu sempre sua orientação sexual, o seu envolvimento apaixonado pelo Verdadeiro e pelo Belo. Afinal, como escreveu o grande poeta romântico inglês John Keats, “Beleza é verdade, verdade beleza -eis tudo que sabeis na terra e tudo que precisais saberâ€. É significativo que na prisão de Reading Oscar Wilde tenha escrito talvez suas duas obras mais importantes: o poema Balada do Cárcere de Reading e o pungente e o sofrido De Profundis, uma longa carta escrita ao seu amigo íntimo Lord Alfred Douglas.

Ao sair da prisão, em 1897, Wilde transferiu-se para Paris, adotando o pseudônimo de Sebastian Melmouth, Pobre e abandonado por todos, inclusive por seus dois filhos, que chegaram a trocar de nome para não serem reconhecidos como seus descendentes, o autor do De Profundis morreu, em 1900, de meningite, num quarto de hotel barato na capital francesa. Apenas duas pessoas estavam presentes no enterro: o amigo Robert Boss e Lord Alfred Douglas, pivô de sua tragédia pessoal. Aliás, sobre Bosie deve-se reconhecer e elogiar sua fidelidade ao mentor e amigo íntimo mais velho: além de pagar seu enterro, em 1938 o filho do implacável marquês de Queensberry dá o troco ao pai e publica um livro autobiográfico, balanço de toda a sua vida, com o título sugestivo de Without Apology (Sem Desculpas). Neste livro, ele relembra sem pudor os sentimentos que o uniram a Wilde. E em seu fecho bem que poderia ter citado estes versos do Soneto 29, de William Shakespeare: “Pois teu doce amor relembrado tal riqueza traz/ Que desdenho trocar com reis o meu estadoâ€.

 

Paulo Azevedo Chaves (jornalista, poeta e cronista)
Casa Branca, Jaboatão dos Guararapes, março/2007

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