Irmãos A dado passo da Nota Pastoral da CEP, Crise de sociedade - Crise de Civilização, lê-se: "A liberdade sexual é, hoje, um novo tabu, onde ninguém ousa tocar" (...), etc.; e quase todo o documento, com uma justiça e pertinência implacáveis, denuncia os múltiplos e vários factores da cultura de morte, que nos cerca e nos ameaça com a instauração da animalidade e da barbárie; e declara até corajosamente que, "quando as leis se afastam da doutrina da Igreja, em matéria moral e de respeito pela dignidade da pessoa humana, elas não obrigam em consciência. O que é legal não significa, necessariamente, o bem moral." Deus seja louvado! Entre tantos pedidos de desculpa da Igreja (sem ninguém pedir desculpa à Igreja pelos seus mártires) é gratificante uma demonstração de força e de consciência esclarecida pelo Espírito Santo: os católicos são convidados a desobedecer ao governo sempre que este se manifeste juridicamente contra as Escrituras, alicerces da Fé. Este documento, portanto, enforma um primeiro sinal de esperança do ressurgimento da autoridade de Cristo, mas não vai até ao âmago do problema: nele não se menciona nem se critica a origem de todos os males apontados. Se "a liberdade sexual é, hoje, um novo tabu, onde ninguém ousa tocar", a democracia é, hoje, um velho tabu, onde ninguém ousa tocar, nem sequer a própria Igreja. Ora, em Portugal, o sistema político que motivou a crise religiosa e social em que vivemos, inseridos num mais amplo contexto de civilização europeia em crise, intitula-se exacta e pomposamente "democracia". Mas, em que consiste esta democracia? § A humanidade não me importa muito, nem pouco, nem nada: o meu próximo, sim, importa-me tudo, na tentativa de nele amar o Todo. A humanidade é uma abstracção de políticos materialistas, laicos, nazis, comunistas, tecnocratas, etc., que pretendem transformar o mundo num campo de concentração global, povoado, na sua maioria, por uma espécia de canalha, com muito pouco de humana, dependente de máquinas e desligada do transcendente por incapacidade mental. O meu próximo é concreto, como este texto, que concretiza, letra a letra, o espírito do que digo: hoje a vizinha do lado, amanhã o meu melhor amigo, depois de amanhã o meu pior inimigo, e assim por diante ao sabor de Cristo. O Mestre, quando multiplicou os peixes e os pães, mandou a multidão repartir-se em grupos e, aos grupos, mandou que repartissem, entre si, a parte que lhes coubera para que, dentro de cada grupo, cada um repartisse com o seu próximo. Há várias espécies de democracia e com várias máscaras, das quais se destacam duas correntes principais: uma agnóstica, ou ateia (Iaica), desnacionalizante e individualista, por exemplo, os regimes implantados no 5 de Outubro de 1910 e no mais recente 25 de Abril de 1974; e outra gnóstica, ou religiosa (confessional), nacionalista, defensora de Deus, da Pátria, do Rei e da Família, por exemplo, o municipalismo da Monarquia tradicional portuguesa, que vigorou até D. Miguel I, o curto "reinado" do herói e mártir Presidente-Rei Sidónio Pais, assassinado em 1918 e, em parte, o Estado Novo de Salazar, cuja maior falha consistiu justamente na ausência de legitimidade teocrática, porque, em vez de assegurar, como seria mister, a transição para o restabelecimento da Monarquia, se converteu em ditadura de circunstância, perpetuada sem mudança, sem sucessor e sem futuro. A primeira corrente democrática enunciada caracteriza-se pelo predomínio da economia selvagem, pragmatismo, anticlericalismo e, sobretudo, pela luta entre partidos, que se alternam no poder e rivalizam em promessas que não cumprem, não lhes montando o interesse nacional, mas única e exclusivamente o interesse próprio e partidário. Os deputados eleitos não representam o povo, mas sim clientelas e movimentos de massas ignorantes e ignaras. É por isso que a retórica dos políticos, para sugestionar as multidões, se revela das mais grosseiras, não lhes valendo sequer uma ou outra frase que roubam aos poetas. Vejam, se forem capazes, determinados programas (não precisamos de dizer quais) actualmente na televisão, que multiplicaram as audiências numa proporção nunca antes verificada: são aqueles mesmos milhões de telespectadores (a maioria) que votam nas eleições, somados às clientelas, e escolhem os nossos governantes. Eis no que dá a aritmética aplicada à política. O resultado está à vista: uma minoria culta e religiosa, dos mais aptos e inteligentes, dominada por uma maioria embrutecida, que, por sua vez, se deixa dominar por alguns declamadores espertos e habilidosos, ao serviço de organizações satânicas, como a pseudo-maçonaria, infiltrada no seio da própria Igreja. A segunda corrente democrática enunciada, embora integrando a tradição monárquica, pode, não obstante, harmonizar-se com um regime republicano, desde que seja o povo, e não a massa, em colaboração com os melhores, a escolher os seus governantes. Impõe-se distinguir, lembrando o pensamento de Pio XII, entre povo e massa: "Povo e massa são dois conceitos diferentes. O povo vive e move-se com vida própria; a massa é, por si mesma, inerte e não pode receber movimento se não de fora. O povo vive da plenitude da vida dos homens que o compõem, cada um dos quais - no seu próprio posto e à sua maneira - é pessoa consciente das suas próprias responsabilidades e convicções próprias. A massa, pelo contrário, espera o impulso de fora, fácil joguete nas mãos de qualquer, que lhe explora os instintos e impressões, disposta a seguir qualquer bandeira, hoje uma, outra amanhã." (A Democracia no Pensamento de Sua Santidade Pio XII, Pro Domo, Lisboa, 1945, págs. 20 e 21). O povo sabe que a autoridade vem de Deus; a massa, manipulada por assassinos ateus, tudo ignora e espezinha à sua passagem, como na França, em 1789. E aqui é que bate o ponto: não só se impõe que seja o povo, e não a massa, a colaborar com os melhores na escolha dos governantes (no âmbito do regime republicano) como também se impõe que não se perca a noção da proveniência divina da autoridade, que confere o poder. Ainda no encalço do pensamento de Pio XII: "Visto que há uma ordem absoluta dos seres e dos fins, à luz da fé cristã, que não pode ter outra origem se não Deus pessoal, nosso Criador, segue-se que a dignidade do homem é a dignidade da imagem de Deus; a dignidade do Estado é a dignidade da comunidade moral que Deus quis; e a dignidade da autoridade política é a dignidade da sua participação na autoridade de Deus. "Nenhuma forma de Estado pode deixar de ter em conta esta conexão íntima e indissociável, e muito menos a democracia." (A Democracia no Pensamento de Sua Santidade PioXlI, Pro Domo, Lisboa, 1945, pág. 28). Tal conexão, será escusado dizer, porque disso todos nós estamos cientes, nem longínqua e dissociável existe na democracia que nos governa: laicidade total. É, portanto, do ponto de vista cristão, uma falsa democracia, inserida na geografia política de uma Europa transformada em colónia dos Estados Unidos da América. A autêntica democracia só existe, para um católico, se (conforme a clarividência de Pio XII) "reunir no seu seio selecção de homens espiritualmente eminentes e de carácter firme, representantes de todo o povo, e não mandatários de uma multidão a cujos interesses facciosos se sacrificam as reais necessidades e exigências do bem comum. ( ...) Selecção de homens de sólidas convicções cristãs ( ...) Onde faltam tais homens, outros vêm ocupar o seu posto, para converter a actividade política em campo da sua ambição." (A Democracia no Pensamento de Sua Santidade Pio XII, Pro Domo, Lisboa, 1945, págs. 30 e 31 ). Ao povo, e não a massa, por conseguinte, é que compete a escolha dos seus representantes, segundo a classe e a profissão: a desigualdade entre os cidadãos, iguais perante Deus e o poder civil, estrutura a orgânica da democracia corporativa, compendiada pelos nossos juristas monárquicos: o povo elege os melhores, em cada município, e estes são a voz do povo nas Cortes. A democracia de massa, que nos governa, é sinónima de tirania do maior número sobre uma minoria, mesmo que a verdade esteja com esta minoria. Mas, o que é a verdade? Nós, católicos, sabemos responder a esta pergunta, ainda que demasiadamente humanos e sujeitos à dúvida. Tal sujeição, porém, à dúvida (ou à fraqueza), que é negação de Cristo (não O negou Pedro por três vezes?), ou afirmação de amor próprio maior do que o amor de Deus, ou inquietação em demanda de sinais de sentido (porque crer não é acomodar-se ) não significa facilitar a tendência em voga, civicamente correcta e falsamente pluralista, para considerar tudo relativo, mesmo o que, pela sua natureza transcendente, é absoluto e deveria ocupar permanentemente a nossa consciência, como guia de pensamento e acção; nem significa impedir-nos de criticar, sem medo e com desassombro, a pseudo-democracia fomentadora da cultura de morte: destruição da identidade nacional, humilhação e desprezo no respeitante à Igreja, corrupção económica, anulação da família a favor do indivíduo (com a consequente falta de apoio à maternidade), ausência de uma política de educação, preterida por uma instrução quantitativa, eliminação do ensino religioso obrigatório, propaganda do aborto, pornografia, troça de Cristo[1], etc., etc., etc. O Concílio Vaticano II declara: "A Igreja que, em razão da sua missão e competência, de modo algum se confunde com a sociedade nem está ligada a qualquer sistema político determinado, é ao mesmo tempo o sinal e salvaguarda da transcendência da pessoa humana. "No domínio próprio de cada uma, comunidade política e Igreja são independentes e autónomas. Mas, embora por títulos diversos, ambas servem a vocação pessoal e social dos mesmos homens. E tanto mais eficazmente exercitarão este serviço para o bem de todos, quanto melhor cultivarem entre si uma sã cooperação, tendo igualmente em conta as circunstâncias de lugar e tempo." (Concílio Ecuménico Vaticano lI, Constituições-Decretos-Declarações e Documentos Pont!ficios, 10ª edição, Editorial A.O: Braga, pág. 405). Pergunta-se: como pode a Igreja cultivar uma sã cooperação com o sistema político que nos governa, em quase tudo contrário ao Evangelho? § Para opor à cultura de morte uma cultura de esperança é preciso, de facto, ser diferente. E para marcar esta diferença, não basta desobedecer às leis profanas, quando estas não se coadunam com os Dez Mandamentos: urge uma contestação completa e uma recusa sistemática. Urge promover, por todos os meios, a desconfiança, já evidente, nas instituições pseudo-democráticas e abster-se de qualquer acto político participativo, a fim de apressar a queda da tirania da massa, inimiga do povo. Lx. 21 de Maio de 2001
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