EM VIAGEM PELA "LITERATURA DE VIAGENS"
Annabela Rita
19-02-2004

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“Terra à vista !”
 

Avanço, porém, para a questão da literatura de viagens propriamente dita.

Uma tão heterogénea e intensa experiência da viagem como a que se constata ao longo da História da humanidade teria, logicamente, de ter como efeito uma vastíssima e diversificada produção textual que designamos como literatura de viagens, podendo nós tomá-la no sentido mais restrito e rigoroso de termo, ou expandindo-a tanto quanto nos permite o próprio conceito de viagem. Bastaria lembrar certas obras fundamentais na cultura ocidental que tematizam a viagem, referência na Literatura e na conceptualização da nossa identidade: a Ilíada , a Odisseia , o Êxodo, etc.. E pensemos nas epopeias nacionais, como Os Lusíadas, ou nas populares como as Chansons de Geste, etc..

Desde cedo, aliás, os textos de viagens atraíram a atenção de todos e viram reconhecida a sua importância como autênticos “livros de maravilhas”. Sinal disso é, por ex., a compilação Speculum Historiale de Vincent de Beauvais (S. XIV) de relatos de viagens missionárias ao Oriente (1).

A par desses, outros foram surgindo dando conta de viagens não realizadas, ou, pelo menos, não na totalidade do itinerário enunciado, como no caso das Viagens de John de Mandeville, obra de muito sucesso na época. Quanto menos radicado na experiência da viagem, mais informado bibliograficamente era o texto, compensação óbvia e natural. Mandeville, p. ex., apoiou-se em bibliografia numerosa e heterogénea, desde relatos de viagens a obras de História e enciclopédias, passando por literatura religiosa, recreativa e científica (2).

As viagens ficcionais e imaginárias atravessam toda a nossa cultura, sujeitas a metamorfoses de cenários e de meios, bem testemunhada por obras como História verdadeira [de uma viagem à lua] (c. 200 d. C.), de Lucien de Samosate, A Navegação de S. Brandão (c. 1130), de Benoît, Le Purgatoire de Saint-Patrick (c. 1188), de H. de Saltray, A visão de Alberico (c. 1127), de autoria anónima, A Utopia (c. 1518), de Thomas Morus, A Cidade do Sol ou ideia de uma República Filosófica (c. 1613), de Tommaso Campanella, L'Autre Monde: Les États et les Empires de la Lune et du Soleil (1657-1622), de Cyrano de Bergerac, The Pilgrim's Progress (1684), de John Bunyan, Gulliver's Travels (1726), de Jonathan Swift, Giphantie (1760), de Charles-François Tiphaine de la Roche, ou La Découverte Australe par un Homme-Volant, ou le Dédade Français (1781), de Nicolas-Anne-Edme Restif de Bretonne, para só mencionar estas, narrativas de Voyages aux Pays de Nulle Part, como as designou Francis Lacassin (3).

As “viagens imaginárias” (4), que se inscrevem num género narrativo que a crítica anglo-saxónica designa por “menipeia” (5), constituirão uma tradição fortemente marcada na Europa por Voyage dans la Lune , de Cyrano, e pela Aventuras de Gulliver , de Swift. No final do séc. XVII, nela emergem dois tipos de textos distintos, a utopia narrativa e a “robinsonada”, ambos radicados já na reivindicação da veracidade e do documental, em resposta à nova apetência do público, ultrapassado que estava o fascínio pelo grande romance à Urfé, à Gombeville, à Mlle de Scudéry. Este projecto ficcional conduz, naturalmente, a literatura a importar modelos e procedimentos da escrita documental (em especial, os de veridição) então em voga: a de viagens. Daí, por exemplo, o desenvolvimento de uma ficção de autentificação que expande o prefácio e o constitui como primeira narrativa, com os correspondentes “desdobramentos” da instância autoral em editor, amigo, aquele que encontra o manuscrito, etc..

Nessa prática mimética, a literatura chegou a gerar imposturas como a do pretenso George Psalmanazar, autor de An Historical and Geographical Description of Formosa (1704), que descreveu e usou (escrita e oralmente) o suposto dialecto “formosão”, o que lhe valeu ser encarregado de ensiná-lo em Oxford a futuros missionários.

Em jeito de panorâmica, ensaiemos uma tipologia do que vislumbro nesse território, aproximando-nos para observar apenas um caso ou outro.

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Notas

(1) Vincent de Beauvais. Bibliotheca Mundi. Vincentii Burgundi (...) Speculum Quadruplex (4 vols.), Duaci, ex off. B.Belleri, 1624; id., Le Miroer Historial, Lyon, Barthélemy Buyer, 1479.

(2) Cf. Maria Adelina Amorim. Viagem e mirabilia : monstros, espantos e prodígios in Fernando Cristóvão. Op. cit., pp. 133/134.

(3) Francis Lacassin (éd.). Voyages aux Pays de Nulle Part , Paris, Robert Laffont1990.

(4) Termo que Charles-Thomas Garnier consagrou como designação de um corpus de textos algo heterogéneo de que recolheu numerosos exemplos desde a Antiguidade nos 36 volumes de Voyages imaginaires, songes, visions et romans cabalistiques (publicados de 1787 a 1789).

(5) Cf. Jean-Michel Racault. Les jeux de la vérité et du mensonge des préfaces des récits de voyages imaginaires à la fin de l'Âge classique (1676-1726) in François Moureau (org.) Métamorphoses du récit de voyage, Paris/Genève, Champion/Slatkine, 1986, pp. 85.

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