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ACÁCIO BARRADAS
 

A poesia reservou-lhe um lugar de honra não apenas na História da Literatura de Moçambique, mas também na História da Literatura de Língua Portuguesa. Daí ter sido galardoado, em 1991, com o Prémio Camões.

Mas José Craveirinha distinguiu-se também noutras actividades.

Como desportista, deu que falar no futebol e obteve boas marcas no atletismo, em que também foi treinador. E como jornalista teve, nas condições adversas do tempo e do lugar, uma intervenção bastante significativa, a que se presta homenagem nesta evocação, que reproduzimos da revista «Jornalismo e Jornalistas» n.º 14, correspondente ao trimestre de Abril/Junho de 2003.

Considerado o maior poeta de Moçambique e um dos maiores de língua portuguesa - e como tal galardoado com o Prémio Camões em 1991 - , José Craveirinha (recentemente falecido, aos 80 anos, num hospital da África do Sul) revelou aptidões igualmente invulgares noutras actividades, tendo sobressaído também no desporto e no jornalismo.

Como desportista, distinguiu-se sobretudo em duas modalidades: o atletismo, com a obtenção de elevadas marcas nos 1500 metros, e o futebol, gerado no mesmo berço dos azes de Moçambique que fizeram a glória da modalidade em Portugal, entre eles Matateu, Eusébio e tantos outros.

Diga-se de passagem que, mesmo depois de ter deixado de praticar atletismo, José Craveirinha foi treinador de outros desportistas de grande nomeada. Um deles seria o célebre Mário Coluna, mais tarde internacional do Benfica e da selecção das quinas, que em 1951 começou por praticar atletismo na capital laurentina, sob a sua orientação.

Quanto ao jeito de Craveirinha para o futebol, são vários os testemunhos que o confirmam. Um dos mais veementes surgiu nas páginas do «Guardian» em crónica do jornalista João Reis, que o descreveu como «potencial marcador de golos de cabeça» quando alinhava no Grupo Desportivo de Lourenço Marques.

Nessa crónica, o autor vaticinava a Craveirinha um glorioso futuro futebolístico, que só não se terá verificado porque as letras reclamaram a cabeça do desportista para outros cometimentos. O vaticínio, porém, daria ensejo a uma amizade de longo curso, com experiências comuns no âmbito jornalístico e, posteriormente, nos cárceres da PIDE. Mas não nos antecipemos...

 
Futebol proibido a negros não assimilados
 

O pendor de José Craveirinha para o desporto iria reflectir-se inevitavelmente no desempenho da sua actividade jornalística. De facto, foi como jornalista desportivo que primacialmente se distinguiu, a partir de meados dos anos 50, ao encarregar-se da secção desportiva do semanário «O Brado Africano», onde aliás fazia um pouco de tudo, colaborando estreitamente com o chefe de redacção e seu irmão João José Craveirinha, a ponto de algumas vezes se confundir a autoria dos respectivos artigos.

Nesse jornal, órgão oficioso da Associação Africana, o vate moçambicano não se restringia - ao contrário do que era habitual nesse tempo, entre os seus pares - a noticiar os factos meramente desportivos. Procurava ir mais fundo e mais longe, pondo o dedo em determinadas feridas que latejavam no corpo da sociedade colonial.

Assim, por exemplo, num artigo publicado em 23 de Janeiro de 1954, sob o título «O negro no desporto de Lourenço Marques», Craveirinha enaltece «o rasgo de puro e desassombrado desportivismo» que representara, na época de 51/52, o «caso absolutamente ímpar» da «apresentação nas pistas de atletismo de alguns atletas negros puros envergando a tão susceptível, até aí, camisola do Sporting local.»

E depois de assinalar ser incompreensível que vigorasse ainda uma «infeliz lei que suprimiu dos campos de futebol a presença do negro quando não apresente o respectivo atestado de assimilação», Craveirinha acrescentava, referindo-se aos negros que se haviam distinguido na secção de atletismo do Sporting de Lourenço Marques: «Nenhum deles possui alvará de assimilação e no entanto são dos mais disciplinados e bem comportados atletas da cidade.» Por ser assim, observava: «Não se compreende que os mesmos homens que podem ombrear nas pistas com elementos de raça europeia não possam também pisar os campos de futebol, esse desporto mais popular entre as raças africanas.»

E como corolário lógico da sua opinião, terminava por defender «uma revisão a tais prepotências, a fim de elevar o nível do desporto no que ele tem de puro e são como veículo de preparação física do indivíduo».

Esta transcrição, a título ilustrativo da intervenção jornalística de José Craveirinha e como amostragem da sociedade fechada em que se movia, caracteriza bem a têmpera, a lucidez e a coragem que sempre caracterizaram «o sage da Mafalala», na feliz designação de Eugénio Lisboa.

De facto, uma tal tomada de posição em plenos anos 50, numa terra dominada por preconceitos raciais importados da África do Sul (então a pátria do «apartheid»), era uma pedrada no charco das convenções locais e um desafio à autoridade do Estado colonial, que gostava de se rever nas teses luso-tropicalistas do sociólogo brasileiro Gilberto Freyre, por ocultarem a nudez forte do racismo sob o manto diáfano da fantasia de uma convivência racial sem peias.

Que essa pedrada no charco fosse arremessada por alguém de raça mestiça, como José Craveirinha, afigurava-se ainda mais desafiador e intolerável, não obstante a sua habilidade para fazer passar tal mensagem pelo crivo da Comissão de Censura à Imprensa. De facto, ao elogiar uma excepção para a defender como regra a seguir, o autor do escrito utilizara um estratagema susceptível de tornar aceitável a sua doutrina. E ao abordar a questão racial no âmbito das actividades desportivas, habitualmente menos sujeitas à vigilância crítica dos censores, o referido estratagema surtia efeito reforçado.

Usando de idênticos artifícios, ele (e muitos outros jornalistas do seu tempo, em todas as chamadas «províncias de Portugal, do Minho a Timor») citavam frequentemente as fontes do Poder e determinados princípios apregoados pelos seus representantes, a fim de denunciarem realidades que, por serem contraditórias desses princípios mas terem o aval das autoridades, tornarem evidente o reino da hipocrisia em que se vegetava.