venda das raparigas . britiande . portugal . abertura: 2006
CARLOS ZATTI

BRASILEIRO & BRASILIENSE
Carlos Zatti*

Designação genérica de “brasileiro”, para cada um dos habitantes!!!...

E, os sons lingüísticos, nas entonações dos sufixos pátrios, gentílicos e étnicos vieram à tona, para aqui ser tema. Não com a erudição fina e graciosa da literatura acadêmica, mas com as arestas da rusticidade do “jeitão” próprio de mim mesmo, como dito “Nas Restevas do Gauchismo”, com o simples propósito de uma exposição das desinências que formam gentílicos das nações e dos povos do universo.

Assim atraca-se — parece interessante a pergunta:

Que erro será o vigente gentilismo étnico do patronímio “Brasil”?

O sufixo “eiro” exprime profissão habitual, ou ofício: o trabalhador do ferro, ferreiro; do campo, campeiro; da pedra, pedreiro; do pão, padeiro; de caminhão, caminhoneiro; da erva, ervateiro; de tropa, tropeiro... Por conseguinte, nunca será “brasileiro” o designativo étnico de “Brasil”.

É isso mesmo: o sufixo “eiro” não forma designativo pátrio, ou gentílico. Historicamente, vernaculamente, “brasileiro” foi o que exercia profissão na indústria extrativa da tinta do ‘pau-brasil’. Assim, seria no Brasil-Colônia, o português que vinha cá trabalhar com tal produto-mercadoria.

“Brasileiro” sempre lembrará a remota idéia migrantista. Jamais, tal termo, significará etimologia do nascido nesta Pátria.

Desde o Século IX, o nome “Brasil” era conhecido dos povos europeus. — Pelo Mediterrâneo negociavam a famosa tinta extraída do pau “bak-kan”, para os árabes, cujo significado se transladaria para o latim como “brasilium”, que significa “brasa”. Nas antigas cartologias, “Brasil” aparece como: Brasily, Bracil, Braxilis, Bresilium, Presil, Presili, Brazille, Brazil...

Nos primeiros tempos, a Colônia de Santa Cruz caiu na cobiça, onde cargueiros corsários aportavam para contrabandear o lenho rubro, altamente rendoso, onde gananciosa profissão requeria coragem para se embrenhar na mata bravia do exclusivo madeiro.

Daí, acessoriamente, o vocativo patronímico: — Terra do pau-brasil; Terra do Brasil e, finalmente, o Brasil. — Então o apelido, para o profissional forasteiro: Brasileiro = aquele que se empenhava no corte e carregamento do famoso pau-brasil, de cujos proventos viveria.

De feito cronológico, vir para o Brasil era tentar exercer a profissão de “brasileiro”, ou aventurar-se a adquirir fortuna no Brasil, não já com tinta do extinto pau-brasil, mas na exploração da inesgotável natureza.

E é desconcertante concluir que não há, na língua pátria, o sufixo “eiro”, etimologicamente, dando significação gentílica ou étnica que defina seus habitantes. — Nem tal som vocal define qualquer raça, ou povo.

Neste idioma, desfilam todos os sufixos nacionais e raciais, sem perfilar o “eiro”: Austríaco, judaico, uruguaio, romano, alemão, húngaro, turco, sueco, suíço, grego, latino, belga, fenício, flamengo, canadense, persa, português, caldeu, americano, egípcio, etrusco, argentino, incásico, babilônio...

Definiram-se todos os contérminos territoriais da brasilidade, e nela modelou-se a Pátria sem o tom vernáculo que se identifique com ela? — Mero fenômeno de desatenção; incorreção estética à necessidade revisionista patriótica. Há a sugestiva adoção de “brasiliano”, “brasílico”, “brasiliense”, que se arrimam à legitimidade do vernáculo, sem o dissabor de serem ridículos... É fácil, simples, sem alardes, sem esmorecimento de evocatividade e sem atropelo na sua correção literário-legislativa, onde poderia o “brasiliano”, por exemplo, se altanar nos aplausos das consagrações nacionais.

É o paradoxal do impirismo displicente: “Somos o único povo do mundo (porque sempre fomos muito originais) que a si próprio se designa por uma indicação profissional”.

Ter a coragem de reconhecer o próprio erro e a iniciativa de corrigi-lo é imperativo de brasilidade franca, pois afinal a franqueza ainda é virtude como é moral o próprio merecimento racial da própria origem.

“Para cada povo aprende (o jovem estudante patrício) um gentílico apropriado. A si mesmo se designa como ‘brasileiro’, analogamente ao carpinteiro, ao quitandeiro, ao padeiro. No seu espírito ainda tenro e em formação, na idade em que as sugestões se enraízam mais profundamente, implanta-se a noção de que a sua qualidade de brasileiro é profissão, ofício. E aí temos no pirralho a semente dum futuro deputado”.

É dever polir arestas, abrindo horizontes para a estabilidade das gerações vindouras deste País.

É a índole crioula que quer a pureza da língua, sem as analogias inúteis. Abandonar a eterna espera do amanhã dispersivo, egoisticamente, na profissão de “brasileiro”.

Será nacionalizante a correção deste erro histórico, já que a língua é um princípio fundamental ao reconhecimento de uma nação.

Fonte: DUARTE, Manoel. “Província e Nação”. Rio/São Paulo. José Olympio. 1949.

Carlos Zatti. Escritor, associado ao Instituto Histórico e Geográfico do Paraná (IHGPR). Membro fundador do Gesul e secretário geral do Movimento O Sul é o Meu País.
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