Vêm aí Los Infieles
by Fracaso Limitada

 

 

 

 

 


 

 

::::::::::::::::::::::::::Maria Alzira Brum::::::::
Coadjuvante e colaboradora em geral do TriploV.
Faço links, escrevo, edito, traduzo, me viro, sobrevivo, vivo. Livro solo: O Doutor e o Jagunço: ciência, cultura e mestiçagem em Os Sertões (Arte&Ciência); coletâneas: Tierra en trance: el cine latinoamericano en cien películas (Alianza), O Clarim e a Oração: cem anos de Os Sertões (Geração), Contos Cruéis: as narrativas mais violentas da literatura brasileira (Geração), Quartas Histórias: contos inspirados em narrativas de Guimarães Rosa (Garamond).
O SORTILÉGIO DA MARIPOSA

Vivíamos numa ilha. A maioria do nós era remediada mas sem meios para ir mais longe. Nós nos reuníamos para conversar, beber, fumar baseado, conhecer gente, andar de praia em praia e costumávamos nos encontrar numa praça perto da Beira-Mar.

Foi lá que o Samuel apareceu.

Devia ter uns 35, 40 mas parecia velho para quem tinha 16, 17 como nós. Era mulato, elegante à sua maneira. Não me lembro de que tenha alguma vez mencionado mulher, filhos, profissão, endereço. Era poeta e logo se enturmou. Fazia versos e os dedicava às garotas. Não sei se eram bons, não os compreendíamos, mas assim mesmo todas queriam ser suas musas.

Samuel conhecia todo mundo no acanhado circuito cultural da cidade, sabia onde rolava o que havia de melhor, compartilhava informações e facilitava nosso acesso. Excelente leitor, tinha sempre um livro para apresentar e emprestar: Pessoa, Prévert, Bandeira, Poe, Borges, Cortázar.
Não me lembro de tê-lo visto triste por suas coisas. Devia ser um homem forte ou, o que é mais provável, eu estava tão atormentada pelos meus próprios problemas que não percebia que os outros também os tinham.

Um dia propôs que formássemos um grupo de teatro para encenar O sortilégio da mariposa, de Garcia Lorca. Eu nunca tinha ouvido falar neste autor, tinha pouco acesso à cultura dita de elite e até tinha vergonha de entrar em certos ambientes, como as galerias de arte.

Passamos incontáveis horas na praça lendo o texto e planejando a montagem da peça. Samuel dirigia com seriedade, e nunca me passou pela cabeça perguntar se tinha feito teatro alguma vez ou como iríamos encenar a peça.

Não a encenamos, O sortilégio da mariposa era presente não futuro. Quando me dei conta, as reuniões na praça tinham ficado para trás junto com a adolescência. Nunca mais vi o Samuel nem os companheiros daquela época.

Ao longo dos anos tenho ouvido e lido muita coisa sobre educação, pedagogia, democratização, acesso ao conhecimento e esqueci quase tudo. Mas me lembro do Samuel na sua luta elegante contra a rotina, o tédio e todo tipo de pobreza. Ele mostrou que a criação pode ser uma estratégia de sobrevivência e transcendência. Sei agora que ele também lutava todo dia com suas sombras e que, apesar disto ou por isto, deu o melhor que tinha.

Samuel não estava numa ilha, ele tinha o dom do mundo, e seu dom me acompanha.

 
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