Chegaram Los Infieles
by Fracaso Limitada

 

 

 

 


 

 

::::::::::::::::::::::::::Maria Alzira Brum::::::::
Coadjuvante e colaboradora em geral do TriploV.
Faço links, escrevo, edito, traduzo, me viro, sobrevivo, vivo. Livro solo: O Doutor e o Jagunço: ciência, cultura e mestiçagem em Os Sertões (Arte&Ciência); coletâneas: Tierra en trance: el cine latinoamericano en cien películas (Alianza), O Clarim e a Oração: cem anos de Os Sertões (Geração), Contos Cruéis: as narrativas mais violentas da literatura brasileira (Geração), Quartas Histórias: contos inspirados em narrativas de Guimarães Rosa (Garamond).
A Ordem Secreta dos Ornitorrincos
Orelha de Nelson Oliveira e trecho

Manchete de todos os jornais: Jeannie atrapalha planos de cientistas. Eles jogaram matéria bruta no túnel de trezentos quilômetros do maior acelerador de partículas do mundo e no segundo seguinte o que conseguiram? Toioioim, ela, genial em todos os sentidos. E de quebra vários ornitorrincos.

Sussurros sobre este livro: hoje Jeannie (Maria) paga o aluguel da garrafa escrevendo roteiros em sânscrito (a tevê e o cinema não sabem mesmo ler). Os ornitorrincos detestam as palavras método, marketing e ornitorrinco, nessa ordem. Cuidado. Não acredite em tudo o que você lê, Jeannie (Dora) e os ornitorrincos são seres muito dialéticos. Muito dissimulados. Madame Bovary (a autora) e as borboletas também.

Segredos sobre este livro: 1) Tudo está conectado, em quantidade e qualidade. 2) Os contrários se interpenetram. 3) No final a afirmação vence, pois toda negação nega a negação. (Eu disse, esses seres são muito dialéticos, muito dissimulados.)

Nelson de Oliveira

A Ordem Secreta dos Ornitorrincos
Este artigo é um resumo das pesquisas realizadas pela autora em Portugal para sua tese de doutorado. Como fontes, além das anotações e de um trabalho inédito de A. (1), recorre-se a um conjunto de textos de L., aventureiro e comerciante do século XVI, encontrado nos arquivos da Torre do Tombo.

Datados entre 1570 e 1590, estes textos constituem a referência mais antiga da Ordem Secreta dos Ornitorrincos. Alguns estudiosos o consideram como um emaranhado de partes de diferentes textos – relatórios comerciais, diário de bordo, listas de materiais e provisões, descrições de rotas marítimas, lugares e costumes dos habitantes das regiões visitadas, reproduções imprecisas ou plágios de trabalhos de autores da época (algumas passagens lembram as Páginas da Peregrinação de Fernão Mendes Pinto) e até fragmentos de um romance inconcluído escrito com elementos de tradição oral e cultura popular (portanto na contramão da literatura da época). Outros vêem neles componentes de uma narrativa de fatos reais que por algum motivo se desordenou e da qual se perderam conexões. Tomando como base esta última, infere-se que L. foi um dos fundadores da Ordem e que os manuscritos são uma espécie de tratado da mesma.

Pode-se situar o início desta história numa praia da atual Austrália numa tarde de 1570 quando um navio português que ia para Timor Leste recolher um carregamento de sândalo teve que aportar ali devido a problemas no casco. Esta, e não a de Cook, ocorrida em 1770, foi a primeira incursão de navegantes europeus naquelas terras. A versão mais difundida entre os historiadores é a de que os portugueses não se interessaram em se fixar ali porque não era lucrativo explorá-las. Alguns dizem que é possível que fossem contrabandistas e não quisessem ficar em evidência anunciando a descoberta às autoridades. Mas também é plausível, sem descartar as hipóteses anteriores, que o segredo esteja ligado à fundação da Ordem.

L. estava a bordo e num dos manuscritos relata a chegada e o fato surpreendente que se seguiu: “Levantaram a âncora, e apesar do dano se chegou bem à terra e, rodeando-a, observamos todas as particularidades que os olhos conseguiam alcançar. Então avistamos um animal, e todos se espantaram muito, porque até então não tinha sido visto em parte nenhuma nada que se parecesse com aquilo. Era uma espécie de híbrido com pêlos e bico de pato.”

Impressionados com o bicho estranho e com outros fenômenos das terras em que aportaram, que contrariavam o cosmos harmônico descrito nos livros, alguns destes viajantes resolveram fundar uma ordem secreta na qual pudessem discutir livremente novos pontos de vista sobre as origens e a evolução do universo.

Da mesma forma que Francis Bacon, acreditavam na criação de um novo mundo pela ação humana. Diferentemente dele, e antecipando-se a teorias que surgiriam nos séculos XIX e XX, consideravam o acaso como um elemento fundamental nos processos criativos.

A imagem do animal avistado na praia naquela tarde, o híbrido, foi adotado como símbolo da Ordem. A. explica que “o híbrido tinha para aqueles viajantes vários significados. Era uma demonstração da contradição, da imperfeição e da desarmonia inerentes ao universo; significava a contingência e a singularidade; representava a origem da vida, pela mistura de características de animais marinhos, terrestres e voadores; simbolizava a aventura marítima e os novos tempos, a modernidade; representava as próprias ordens místicas e secretas que, como se sabe, estiveram implicadas na formação do modo científico de pensamento e conhecimento. O híbrido, conforme algumas simbologias e tradições herméticas, também era uma representação do humano.”

Segundo se depreende dos manuscritos de L., assim como a maioria dos pensadores ligados ao nascimento da modernidade, os membros da Ordem acreditavam na existência de uma correspondência entre a linguagem e os fenômenos da natureza. Mas, enquanto os primeiros achavam que esta correspondência poderia revelar a harmonia, a verdade última do universo e as causas dos fenômenos, os segundos viam nela um espelho da criação em processo. A Ordem também afirmava a indissociabilidade, ou hibridismo, entre natureza e cultura e a indiferenciação das leis que regem a existência de uma e outra.

Nascida numa comunidade de viajantes, a Ordem não possuía caráter nacional ou pátria. A comunicação e a translação eram parte de sua filosofia, o que a levou a difundir-se pelo mundo nos séculos seguintes. A partir do século XIX, com a classificação das espécies pela ciência, passou a ser conhecida como Ordem Secreta dos Ornitorrincos.

Ninguém nunca admitiu ter feito parte da Ordem. Alguns estudiosos, no entanto, apontam sua influência sobre pensadores do século XX. O mais importante deles teria sido Charles S. Peirce, que considerava a retórica como parte da lógica e construiu sua teoria sobre a máxima de que “tudo é signo”. Bem menos conhecido que Peirce, mas não menos interessante, I. Templiakov também coincide com princípios da Ordem ao definir, na teoria da Biocinética Estelar, o movimento como princípio do universo.

Acredita-se que a Ordem Secreta dos Ornitorrincos tenha chegado ao Brasil já no seu início. A. se refere a semelhanças entre seus fundamentos e trechos de um tratado de medicina homeopática encontrado no Rio de Janeiro que atribui certas mortes, consideradas então como de causa desconhecida, “à não adequação dos personagens, dos narradores ou dos observadores ao movimento que, necessária ou aleatoriamente, produz as mudanças”.

(1) Gentilmente cedido pelo autor para este trabalho.

 

 

 




 



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