Sandra Mara Corazza
Manifesto

(della scrilettura cannibale)

só a antropofagia nos une
escrileituralmente

expressão mascarada da
escrita-pela-leitura e da leitura-pela-escrita
bravos combates das máquinas de guerra

única lei do mundo da écrilecture
síndrome de Saturno
ogro que engole mais que devora
olho esbugalhado boca escancarada
um velho louco
goya

refeição totêmica
freud homenageia frazer
só podia interesses estratégicos
ladainha conhecida a fábula eucarística e a edipiana
parricídio original nada disso
anexação fagocitária é que é um processo canibal
insaciável apetite

writing-and-wreading
transubstanciação do texto
suas palavras são mais do que vestígios ou emblemas
idólatras mágicas brincalhonas
têm assonâncias sobreposições dígitos corpúsculos fluidos
fazem sinapses pontes contatos rimam transformam-se dobram-se
até o infinito

monadologia da palavra-canibal
cada uma interligada afetada por outras
experimenta tudo o que acontece no universo
velocidade estonteante
alquimia fantasística
unheimlich
o verbo enfim se faz carne

começar com a morte ir vida adentro voltar pra morte
fábula de dante
coruja de collodi


quando os mortos choram não é porque estejam se recuperando
é porque não querem morrer

linhas de blanchot
eu não disse nada de extraordinário nem de surpreendente

o que é extraordinário começa no momento em que eu paro
mas já não sou mais capaz de dizê-lo
carta de flaubert a louise colet
nunca olhei para uma criança sem pensar que iria crescer
nem olhei para um berço sem pensar em um túmulo
a visão de uma mulher nua me faz imaginar um esqueleto

passeio de baudelaire
com amada em manhã radiante diante duma carniça
ó deusa da beleza ó sol da minha vida
hás de ser como essa coisa apodrecida essa medonha corrupção

as três graças de rubens
ceifadeira espreita e espera à esquerda

géricault e suas danças de morte
balé cruel violência giratória cerimônia fúnebre
crime sórdido rito selvagem
mulher dá de beber sangue da vítima a um porco
motivo sulfúreo sacrilégio versão transgressiva da comunhão cristã
profana blasfematória teatro iconoclasta homicídio escárnio
film noir

devorar o que se lê or not escrever
that is the question

seguir pegadas da morte
de-qualquer-pensamento-importante-que-a-burrice-
usa-porque-ela-é-móvele-veste-todos-os-trajes-da-verdade

hölderlin em stuttgart sozinho 36 anos na torre
dedo erguido mostra saída a visitante indesejado
diz-lhe eu sou o senhor deus
anne frank em amsterdã escreve diário no anexo secreto
após subir escada íngreme estreita e só descer pra morrer
emily dickinson em massachussets no escritório-dormitório de
the homestead escreve 1800 poemas-fascicles
mallarmé em paris anota para anatole filho morto aos 8 anos
você pode com suas mãozinhas me arrastar
para dentro da sepultura você tem o direito
eu que acompanho você eu me deixo levar


mas se você quiser nós dois vamos

contra os códigos
contra as conchas protetoras das noções costumeiras
contra a mãe o pai o filho e os santos espíritos
dos sentidos familiares nativos deuses do lar

só interessa o que não foi escrito por nós
em sua indomesticidade

escrileitor à deriva
perdido num mundo que não compreende
não sabe o que quer dizer
quando diz não sabe o que significa
nem pode ter certeza
chave quebrada na fechadura
porta sem

vouloir dire
estamos saturados de certezas sem suspeita
extenuados com verdades não postas em drama
ninguém tem direito de acabar com qualquer enigma
nem de parar de nos assustar
ninguém tem direito de pôr em ordem o devastado o irreconhecível
o repugnante o turbulento os colapsos as estações clandestinas
as figuras moribundas as artistagens marginais deletérias
os heróis como sombras de si mesmos
só queremos penas
capitais

e a vida que resta é usada para escrever-e-ler textos
feridos decapitados enforcados estrangulados fustigados esquartejados
monumentos de papel dissidentes insulares feitos em jardins de suplícios
de um mundo sem deus sem senhor sem superego

textos-náufragos
scrilettori na jangada de medusa
com a energia do desespero se autodestroem
exercícios homicidas arruaças rixas motins combates furiosos orgias de carne caos belicoso
hidras e leviatãs
cuja(s) cripturas viram monstros de cem cabeças
canibalismo generalizado

o que não os deixava adernar era o exato do fato a realidade da língua
o símile a metáfora a metonímia a sinédoque o significante
a biografia vestida a literatura permeável
entre o mundo interior e o mundo exterior

raiva imensa contra textos-burocratas
que acham que lêem e que escrevem
só fantasias de scrilettura
os empurram pra barriga do tubarão

textos-filhos-de-moitas
partejadores de formigas-cortadeiras
textos encontrados amados e odiados ferozmente
com toda força da ironia por bouvard e pécuchet
no país das cobras grandes
vão a bailes de botas de cano bem alto
enojados

é porque não querem sintaxes nem coleções de gramáticas
nem velhas semânticas nem itálicos nem letras maiúsculas nem pontuações
é porque não querem aqueles que
sempre sabem sempre o que estão lendo e
sempre o que estão escrevendo sempre
em que campo em que área
se é crítica se é pesquisa se é literatura se é filosofia se é matemática
sociologia filologia psicologia educação religião direito anal genital
se é ciência dura ou mole de patinho alcatra filé mignon
fronteiriço inter trans multi cultural continental global
desperdícios tristes em separado
estéreis em combinações variadas

eruditamos criterizamos pontuamos tudo
esquecemos a leveza a rapidez a exatidão a visibilidade a multiplicidade da
expressão
saudades da escrita acadêmica não há
seu arcaísmo estourou faz tempo
já encheu até os que achavam que estava bem
ela se deformou como pneu furado
arrebentou como balão por demais assoprado
acabou-se sua história e morreu sua vitória

textos-grotescos
consciência participante rítmica religiosa
melancolias culpas desesperos
relinchos maldades paraísos artificiais

textos-bufos
style empesé paquidérmico preciosista
hiperbólico bombástico retórico prolixo

textos-floreios
disciplentes frívolos phrases banales


et qui parlant beaucoup ne disent jamais rien

textos-adestrados
não sabem que l’adjectif est l’ennemi du substantif

di meliora dent
légèreté
os filósofos fazem não-filosofia os leitores fazem não-leitura os críticos
fazem não-crítica os escritores fazem não-escrita
em plena academia fazemos o indiscernível

écrilectures para scrilettori
indecidíveis

a pesada couraça ganha asas
curta é a dor eterna a alegria
dos que não sabem e não descobrem
inversão e invasão são ilusões só para morais e imorais
um quadro não é só linhas e cores
a estatuária não é só volumes sob a luz
ágeis e ilógicos
são o texto-saltimbanco o romance-invenção a poesia-infantil
desvios libertinos
práticas ocultas na genealogia das idéias
línguas dialetais menores milionárias nos erros
como falamos escrevemos lemos gostamos

há luta pelo caminho dos textos
na terra dos acadêmicos
há fardas aparelhos de estado fascismos ludibriações
e outros-que-tais
similis similis gaudet

estamos nos lixando
queremos a dionização estética
só não copiar só não repetir só não definir só não dicionarizar
só não reproduzir igualzinho
queremos textos nus músicas escovadas telas lixadas estatutária sem molde
não métodos não métricas não metas
já chega

a arte não vai voltar pras elites
há construcionismo
rotamentos dinâmicos de fatores destrutivos
trabalho contra o naturalismo
desmanche da figura fragmentação da morbidez romântica
substituição do mundo catalogado nos livros


fios fulgurações ondas marítimas artísticas atmosféricas
invasores de finalidades arranjos monstruosos
eloqüentes pavores de um não-senso puro

escrever-e-ler com olhos livres e mãos ciclópicas
sem acertar o relógio sem ajustar o foco
sem mirar nos alvos nos câmbios
o problema é não ser da época

o estado de graça substitui o estado de adesão
originalidade literária pra inutilizar repetição acadêmica
não acreditamos nem numa nem noutra
escrevlemos nos interstícios das duas

temos indigestões de sabedoria universal
dor de barriga de tradições pedagógicas
úlcera de reminiscências metodológicas
abscessos de cânones literários
náuseas de resultados científicos
tédio de comparações provadas entre pesquisas
cancro de repetitio est mater studiorum

bárbaros crédulos pitorescos
infinita la commedia
somos contra os écrivants
importadores de enlatados limpos e acolhedores
e suas écrivances exportadoras de entalados habitáveis

queremos
a existência palpável da vida dos écrivains
e suas écritures exterminadoras de atmosferas soporíferas
o transe o estupor a confusão os projetos os materiais

os copos as rolhas a tinta derramada
as garrafas nadando pelo chão as cadeiras decapitadas

o fartum
textos-bovarys
textos-lúbricos do mapa-múndi
lidos-e-escritos em coches fechados para fins sexuais
o devir-revolucionário da salamandrina escrileitura caudada
de-pintas-amarelas que contêm glândulas de veneno
a hibernar em ocos de árvores
cuja leitura sai magicamente das chamas
hábitos noturnos ativas posturas anti-predatórias
liberação de substâncias tóxicas

queremos
convulsões musculares elevação da pressão sanguínea hiperventilação cerebral
desse estilo reptiliano


quando afirma interroga
maior que a revolução maior que o amém
revoltas produtivas de saberes com epilepsia esquizofrenia dispepsia
sem elas
as palavras não pensam

andaríamos mal se textos-canibais agonizassem entre cadáveres
sem que estivessem mortos
se fizessem a glosa das grandes obras
se sujeitassem seus personagens aos grilhões da filiação
é que eles habitam um necrotério ambulante
cujos hóspedes já foram exumados

o homem do iluminismo não conheceu o canibalismo
azar da velha aranha nefasta
com o seu chinesismo königsberguiano
pra ele por certo um avatar da superstição
não da civilização racional universal
a enciclopédia recusou ao canibalismo um verbete
só no artigo anônimo caraíbas
pelo exotismo coisa de selvagem prática de tribos autóctones réprobos
humanos se muito na aparência
e deu chegou foi
tem mais não
mas é assim mesmo que queremos
wreaders vadios vagabundos polígamos politeístas passeando nus
vivendo muito escrevendo lendo de quatro patas
na noite quando mais escura está
acocorados em riba das folhas catando seus carrapatos ponteando na
violinha em toque rasgado botando a boca no mundo
cantando na fala impura as frases e os casos

textos que vêm da loucura e de nenhum outro lugar
sobrevivem numa superfície despedaçadora
desumana imperturbável hiperbórea
de condição primitiva de animalidade triunfante em estado de natureza torpe
sobre os quais rousseau jamais se debruçou
porque reina ali a tirania dos corpos
inclinações apetites instintos
desejo canibal

textos que comem o que aprisionam
não em práticas solitárias onanistas tristes no final
repartir restos das vítimas requer
atos coletivos comunitários ebriedade amigável culinária festiva
nem crus nem cozidos


que se estropiem os etnólogos
bem assados preparados
pelo fogo que purifica o que na carne resta da quintessência humana
órgãos sangue pele nervos artérias veias capilares
catarse não dos comestíveis
amorfati dos comensais

textos-idiotas
a idade de ouro anunciada pela
literatura deu em quê
cadê a mina do legível e do escriptível
e os livros de auto-ajuda & cia
além de vomitarem o amor e o bem-querer descobrem a felicidade
tristeza é a prova dos nove daqueles que na
flor da idade já são anciãos

no torvelinho das emoções há textos que dizem tanta coisa que não deveriam dizer
nenhum vem a este mundo para ofender nem ser ofendido
nem para fazer com que outros se enfureçam ou se magoem
ah o pacífico viver e deixar viver ah o formoso privilégio dos plácidos
ah a santidade do texto-bom-moço ah o espírito puro do texto-seminarista
ah a garantia do texto-científico ah a honra do texto-verdadeiro
ah a posição de responsabilidade do texto-amo da casa
ah o empreendedorismo do texto-liberal ah a sustentabilidade do
texto-empresarial
ah ter textos que respondem quando se pergunta
quem sou onde estou para que sirvo para onde vou
envenenamento profissional
décadence

só textos-bizarros são comestíveis

quais livros são para pouquíssimos e já nascem póstumos
quem mais além de nietzsche tem a coragem de escrever para o proibido
a predestinação para o labirinto a experiência de sete solidões
quem tem ao ler novos ouvidos para novas músicas
novos olhos para o mais distante
uma nova consciência para novas verdades
vontade para a economia de grande estilo
manter juntos seu entusiasmo e sua força
com incondicional liberdade ante si mesmo
quem levanta a cabeça
quem se olha nos olhos
quando escreve-e-lê

além do gelo da morte da fraqueza da compaixão
viver-escrever é ir deixando pra trás
sinos dos mortos soam


mas eles não sabem que estão mortos
bifurcações de beleza são motores da existência
desencaminham deteriorações da scrilettura

bonomia não pedir perdão não virtude não
paz viciada não compromisso covarde não tolerância que tudo compreende não
resignação não animal de rebanho não
sentimentos superiores não ideais da humanidade não
moralina não por favor
plenitude tensão êxtase acumulação de forças
do-prazer-de-ler-ao-desejo-de-escrever
desejo-de-escrever-pelo-prazer-de-ler
energia vital no salto pro desconhecido

da divina à comédia humana
renunciei antes de nascer de beckett preferia não de bartleby
banquete de platão anticristo de zaratustra
sthendal george sand anne rice stephen king
robert walser franz kafka thomas mann stephan zweig
elias canetti walter benjamin kurt tucholsky fiódor dostoiévski
o idiota crime e castigo os demônios irmãos karamazov notas do subterrâneo
nélida piñon lygia fagundes telles cecília meireles clarice lispector
tchekov tolstoi jack london kleist
victor hugo lamartine alfred de musset michelet millôr
guimarães rosa haroldo de campos augusto dos anjos
carlos drummond de andrade
goethe balzac h.p.lovecraft paul auster
robbe-grillet sacher-masoch marquês de sade
jarry burroughs erasmo de rotterdam virginia woolf
teresa filósofa joyce bloomsday 16 de junho
zola realismo neo-realismo proust
casemiro de abreu castro alves
homero hesíodo mário quintana sartre l’idiot de la famille
hilda hilst nathalie sarraute marguerite duras
artaud bene oswald mário de andrade rimbaud faulkner
butor camus byron dom quixote
eugène sue dalton trevisan conde de lautréamont
musil machado de assis érico vérissimo
andré breton paul éluard
plínio marcos ghérasim luca charles péguy
céline fernando pessoa lou andréas-salomé
rilke fitzgerald caio fernando abreu
anaïs nin doris lessing lewis carrol henry miller
jack kerouac charles bukowski
carrasco do romantismo
madame bovary c’est moi

sem dúvida tivemos mais do que mereceríamos


textos-canibais

selvagens avançam transbordam exalam fogo se consomem no fogo se aniquilam no limiar
dos sentidos vivem através de um sonho fornicam com o real
como blocos de palavras são reais como figuras de sonho os seus reais são romances vivos
com a embriaguez com o arrebatamento com a pulsão da primavera
escrevem-e-lêem
o que está em sua paixão sob a primeira atração do amor
coisas novas animadas ardentes encantadas

fazem apolo reunir o dioniso asiático que chegou despedaçado
pássaros de mau agouro gritarem sons de desgraça
o eremita de croisset nascer em dublin
ou no egito em belém do pará no santuário de apolo em delfos
ver yvetot e morrer
sorrir de maneira encantadora se beliscar morder a língua
galileu negar publicamente que a terra girava ao redor do sol

sua linguagem
não é brassière nem sutiã nem colete salva-vidas
ela é uma criança e nós somos seus brinquedos
não fomos nós que chegamos tarde
amoureuse
você é que chegou cedo

quimera ambígua
corpo tricéfalo cabeças não idênticas
trindade funesta das parcas erínias feiticeiras
súcubos mitológicos aves carniceiras de rapina
apêndices mortais colo bico garras
canibalismo semântico
ave-eva iconográfica
sincretismo inédito
linguagem-esfinge
anjo monstro prostituta
asas de cisne patas de felino tiara de rainha seios de cortesã

em seu panteão maléfico
deuses se fazem demônios e deidades se tornam baratas
pela mistura dos valores
vítimas gêneros complexos produtos bastardos
devoração de passantes que não resolvem seus enigmas
donde a nossa perdição de corja
ainda bem

por que derramar o canto dos textos aos ventos aos gorgulhos às luzes insensíveis
não deixes que a esfinge-grega mantenha relações familiares


que ela seja esfinge-negra sempre transgressiva e blasfematória
que se agarre à frase de um autor como um ácaro
com três garras em cada uma das oito pernas e mais duas pinças
que use suas expressões como endoparasita no hospedeiro
que apague idéias falsas e as troque justo por idéias
antropofagia do plagiar pra transformar

criação da novidade não apazigua não tem retidão não tem comércio
implica

nunca achamos que o melhor é não escrever nem ler
e ver os textos morrerem logo
não admitimos benefícios da obediência e da imitação
honrarias desonram
títulos nobiliários degradam
críticos entorpecem
for ever reading never to be read

quem precisa mais de quem
o leitor do escritor ou o escritor do leitor
se achar que vale mesmo a pena discuta isto mas não conclua nada
sustente o paradigma sem representações e a argumentação sem simploriedade
deixe que o arranjo das figuras se transforme em pesadelo
use os dispositivos da feitiçaria da fábula da fantasia
máquinas canibais par excellence
les machines désirantes de deleuze-guattari

corpos-sem-órgãos de textos estreitam-se em abraços mortais

o cutelo da guilhotina mostra seus efeitos cortantes
a simbiose a coalescência a fusão compõem o seu teatro de marionetes
o moloch de seu papel mói desmancha tritura devora
frases se derramam dentro deles mil línguas mil fluxos clamam num alarido de bordel
esquecidos dos totens e dos tabus

é só por isso que
erguem barricadas contra

cuidado
a lei é policial
castiga os rebeldes
a lei é cega
sem gratidão os cavalos de diomedes
devoram o pai que os alimentava
a lei é despótica
o minotauro exige de atenas tributos de carne fresca
cuidado
a república atual dos textos é uma necromancia


sua arqueologia de criação é medíocre
le secret pour être ennuyeux c’est de tout dire

danem-se

textos-canibais
são marginais
têm medo de ter sucesso na vida
fadiga espiritual hiperespiritualização lógica demais
contra os que ganham pontos e verbas
não se trata de jalousie
desde os reis os republicanos seguem sendo analfabetos
dizem aos autores-jornalistas de sucesso
ponham isso no papel mas sem muita crítica
fazem-se assim empréstimos e gravam-se notícias favoráveis
a hora-do-brasil começou quando o padre vieira
levou o dinheiro da comissão pra portugal e nos deixou esse tipo de lábia
uma hora cristã

contra os gênios que lêem-escrevem-correm atrás de prêmios
por uma escrileitura não rubricada não encomendada
que não seja antítese da vida
dispersa progressivamente
jogada a fundo perdido
não na bolsa de valores
no jogo ideal do passa-anel sem anel
valem o calor a umidade o cheiro que circulam
da minha pra tua mão
do teu pro meu texto

escrileitura-antropófoga
tem o seu próprio bestiário
eu vos envio como textos-lobos no meio de textos-ovelhas
sede imprudentes como as serpentes

odeia textos-cabeças-moles
que têm sangue de pombos e falta do fel amargo
lamartine pensamentos de pascal caracteres de la bruyère máximas de
vauvenargues e de la rochefoucauld

felizmente isidore ducasse corrigiu
em pascal
se a moral de cleópatra fosse menos curta
a face da terra teria mudado
nem por isso seu nariz teria ficado mais comprido
em dante
deixai todo desespero ó vós que entrais


como se vê o que anda no torpor pode recobrar vida e calor

escrever em parceria não mesmo
antropofagia é sempre mútua
precisa ter dois ou três ao menos pra se ser louco em bando

conceber espírito com corpo
antropomorfismo necessita de vacinas antropofágicas
pra equilibrar escrevências anti-canibalescas
sabichonas inquisições exteriores
enfraquecedoras estreitezas a apagarem tudo o que ali arde e
aqueles que lêem-e-escrevem com a naturalidade
de uma galinha botando ovos
pelo lugar apropriado

só atendemos ao mundo da arte
só escovamos bem o cabelo do estilo para que brilhe
nunca atendemos à religião da arte
dada a insignificância de sua fanfarronice
às insígnias de sua preguiça
ao viveiro de sua ignorância
à onipotência de seus inspirados

illustres confrères
queremos a justiça do grama de emoção poética

o galope nas patas o vento na cara a gargalhada arrancada aos pulmões
atmosfera ofuscante que há em cada pensamento e palavra
pernas e roupas perfumes e jóias aroma de café e sabor da geléia de cerejas
sol que faz a pena deslizar ludicamente

já chega da codificação da ciência e da magia
já chega de eficiência e propriedade senso prático e ponderação
prazeres regrados doçura melancólica
transformação da lealdade aos tabus em traição aos totens
dá tudo no mesmo

contra textos-burros
reversíveis às idéias de esperança elevação ternura
submetidos às idéias objetivadas
cadaverizadas

queremos textos-ursos
em seus covis em suas tocas em suas velhas peles
e que eles vivam longe dos louváveis sentimentos humanos

pensamento mais do que dinâmico
escrileitura em variação-contínua


contra textos-sublimes
vítimas do sistema das estruturas das instituições
fontes de torpores bloqueios mesmices ressentimentos queixas
ninguém espera ansioso por eles
são alvos e sem graça tímidos convenientes palatáveis
lancemos bombas amnésicas contra esses trens de carga
procedimentos sobrenaturais
de ódio à sua humanidade de ódio à sua democracia
de desinteresse por sua política
procedimentos antipatrióticos
de vidas selvagens no deserto de envolvimento com
textos-resfolegantes
de estilhaçamento de torres de marfim virtudes positivas
bem-estar cordial

com montaigne fazer os textos dormirem
sobre travesseiros cheios dos pregos de
dúvidas rebotalhos devires desejos caosmos

textos-infinitos
cortam minhocas ao meio e suas cabeças desenvolvem novas caudas
o mais espantoso é quando as caudas desenvolvem novas cabeças
animais desembestados

morte e vida das hipóteses
é preciso crueldade para com o eu
nada de subsistência conhecimento verdade solidez graciosos arredores
alegria recatada entorno prudente contextos explicativos
ornamentos expostos à contemplação
sentimentos de serena majestade fé inquebrantável
ano que vem em jerusalém
leshaná habaá bi ierushalaim
babaquices

espasmos ondulações lambidas flamejantes de dragões
antropofagia
hostilidade contra elites das teleologias
do progresso do racionalismo da cidadania
plantas de estufa escaninhos categorias
braços fartos de textos-medíocres
fraudes

exuberantes trepadeiras em comunicação com a terra
textos-canibais

não ponhas palavras em nossas bocas e em nossos textos
fizeram de conta que se catequizaram e foram pular carnaval
caminharam até os tronos chafurdaram nas pocilgas


agitaram bandeiras vermelho-sangue ou pretas
alavancaram a revolução até as raias da fanfarronice
o texto-índio se muniu da boca-de-senador
comprou celular notebook vendeu a madeira as plantas a floresta amazônica
antes figurou nas óperas de alencar cheio de bons sentimentos

portugueses ora pois
fingimentos

já temos os companheiros proletários
elevados ao mesmo nível de estupidez alcançado pela burguesia
pra que mais
já amamos as almas caridosas a boa vontade as coisas do coração
fizemos guerras lutas étnicas campos de refugiados matamos crianças
encarnamos o espírito dos séculos XX e XXI
ganhamos até légion d’honneur por tudo isso
precisa ir além

o mundo se transforma a cara da terra não é a mesma
e os textos-antropófagos
relampejam raios com os olhos trovejam trovões com vozes potentes
terremotos horripilantes saraivadas de granizo lavas de vulcão
na língua sua que é a da nau dos loucos

catiti catiti
imara notiá
notiá imara
ipeju
ó lua nova ó lua nova
assopra nos textos
de fulano e sicrano e beltrano
lembranças de mim
[roubado de o selvagem de couto magalhães]

correr e agitar-se e estourar a bexiga e desembuchar e parir
é o movimento de textos-canibais
nada aprender do aprendido
desaprender e não prender
empreender trabalho de encontros e de borracheiras
sibilar sibilante sibila
fazem voltar almas que andavam ausentes por longo tempo

pelo vale da morte cavalgam a distribuição dos bens físicos morais escravos
e pensar que se achou poder transpor o mistério da escrita e da leitura
com o auxílio de formas gramaticais

um dia
perguntei a um-alguém o que era escrevler


e o pior ele respondeu
escrevler é a garantia do exercício de possibilidades
este um-alguém não merecia nem a comida que comia
só merecia os textos que escrevlia
ninguém sabe o que é escrevler nem o que é garantia
nem o que são possibilidades
escreve-lê-se porque se montam escrileituras
fabulam-se notas não memórias
deliram-se puncta
picadas pequenos buracos pequenas manchas pequenos cortes
lances de dados acasos que pungem mortificam ferem

cá entre nós
este um-alguém não merece ser comido
muito duro pra mastigar
há que se ter bom-gosto também pra ser canibal

só não há determinismo onde há diferença plural amizade cumplicidade
rosário de prazeres voluptuosidade blocos de sensações
rumores da língua grãos da voz
mas se você não tem nada com isso
pode martelar as identidades dos seus textos
caro amigo
junto com a sua porque ela deve estar uma porcaria

livros em baús cheios e prateleiras suspensas
entram como diabos nos corpos de grifos mutilados
esfregam seus pêlos em poças de lodo
velhas tarântulas negras enchem taças de orgias
com o sangue dos seus pescoços
transfusões

contra as sublimações antagônicas
papagaios são humanos
perroquet é diminutivo de pierrot
parrot vem de pierre perico deriva de pedro
aristóteles e plínio confirmaram
papagaios são libidinosos quando embriagados
também sofrem de gota aftas úlceras de garganta
félicité-antropófaga de un coeur simple soube disso antes de todos nós
bem feito

contra a verdade e o juízo dos escreventes visionários
é mentira muitas vezes repetida

por isso foram textos-idealistas que vieram textos-moralistas que ficaram
textos-charlatões textos-trapaceiros


cheios de prescrições salvações hábitos duma civilização
que os scrilettori-canibais vão comendo
porque são fortes e vingativos como os jabutis

se o diabo é a inconsciência do universo criado
guaraci é a mãe de textos-viventes-videntes
jaci é a irmã incestuosa de textos-vegetais

textos-germinações
não têm especulação mas adivinhações
não fazem comunicação embaralham suas cartas
realizam modulações irrepetíveis migrações ambigüidades
fogem dos estados tediosos da criatividade espontânea do estetismo estéril
são anti-esclerose e anti-rigor
conservações conservatórios amarras do especulativo

do discurso logocêntrico ao discurso por vir
pela desfuncionalização da linguagem
o pater é morto junto com a moral da cegonha

com a medicalização da existência com a butoxalização da aparência
sacrifício dos primogênitos

ignorância dos códigos + fantasias + curiosidade + bando + continentes +
exercícios despersonalização + heterogeneidade + hybris = usina
vs.
negociozinhos privados + reacionários + familialistas + territorialidades +
campos fechados superegóicos + arames farpados + fronteiras +
nações + representações = teatro

partir de um profundo repúdio ao gênero humano
para chegar à idéia de deus
a-escritura-doida-e-a-leitura-infame não precisaram
porque são bravas e têm a espessura da palha do artista da fome
grosseiras e cruéis o bastante para pisar nos bons e maleáveis costumes
anjos da queda não abrandam seus corações

textos-mornos
choramingam como bebês nos cueiros
berram como bezerros
e elas firmes
nada têm a ver com tais infortúnios
afinal sofrem injúrias abjetas desde que nasceram

a escrileitura-canibal não julga não normaliza
apreende a parte de sombra das palmeiras da pindorama
contra
imposição fonte do costume


palavras de cólera transformadas em sensatez
lado doutor hermenêutico citações de página inteira
autores famosos gabinetismo burocracia se auto-alimentando
vocações profissionais coletividades organizadas ações espontaneístas
frases feitas falar difícil escrever enigmático
a lã dos carneiros teve de ser pintada como lã mesmo
contra

o modelo as cópias os pretendentes sem aberrações
a realidade sem loucura os fatos sem cipós maliciosos
inveja usura calúnia exploração aviltamento prostituição assassinatos
pecados e pestes de povos civilizados

ação escrileitora
de experiências renovadas de queima do tempo nas praças
de alegria com o largado e o descoberto
de supressão das paralisias do pensamento
por procedimentos fantasmagóricos
acreditar em nada fazer estrelas
engolir inimigos sacros especialmente são paulo
lutar contra o cotidiano mecânica de fazer versos oficinas de escrita
questionários morais de leitura
humana aventura terrena finalidade
com alicerces molhados
sem derramar lágrimas
sem o mais alto sentido da vida

contra
a poesia que foi pau-brasil e pau-no-brasil
agora
scriletture-de-pau-e-pedra
sem sala de jantar domingueira
sem passarinhos cantando na mata resumida das gaiolas
sem sujeito magro compondo valsa pra flauta
sem maricota lendo o jornal
nele já não anda o presente
hoje só o fantástico

agora
textos-de-pau-e-pedra-com-e-sem-brasil
sem fórmulas pra extemporâneas expressões
senão vão sufocar
outra vez

estado de inocência absoluta
novas
perspectivas notas escalas
novos


conceptos perceptos afectos
pela invenção e pela surpresa
novas
no

Referências

(fontes de citações e de inspirações indicadas só aqui)
1) Manifestos de Oswald de Andrade: a) Manifesto da poesia pau-brasil. Publicado no Correio da Manhã, 18 de março de 1924; b) Manifesto antropófago. Escrito em Piratininga, Ano 374 da Deglutição do Bispo Sardinha. Publicado na Revista de Antropofagia, Ano 1, nº 1, maio de 1928; ambos retirados de www.antropofagia.com.br em abril de 2007.

2) Paul Auster, com A invenção da solidão, tradução de Rubens Figueiredo, para a Companhia das Letras, 1999, forneceu pistas importantes.

3) Charles Baudelaire, em As flores do mal, tradução de Ivan Junqueira, para a Editora Nova Fronteira, 2006, também.

4) Arthur Shopenhauer, em A arte de escrever, organização e tradução de Pedro Süssekind, para L&PM, 2006, idem.

5) Italo Calvino, com suas Seis propostas para o próximo milênio: lições americanas, tradução de Ivo Barroso, Companhia das Letras, 1990, evidentemente.

6) Robert Musil, em O homem sem qualidades, tradução de Carlos Abessenth e Lya Luft, 2006, também.

7) E, claro, Macunaíma: o herói sem nenhum caráter, de Mário de Andrade, publicado pela Garnier, em 2004, e revisto por Telê Lopez.

8) Sem falar da minha companhia de sempre, Friedrich Nietzsche, desta vez, com O Anticristo: maldição ao cristianismo: Ditirambos de Dionísio, felizmente, agora, traduzidos por Paulo César de Souza para a Companhia das Letras, 2007.

9) Todos os livros e Trois contes de Gustave Flaubert, além do seu papagaio (em verdade, de Félicité), em Julian Barnes, O papagaio de Flaubert, tradução de Manoel Paulo Ferreira, Editora Rocco, 1988, foram maravilhosos.

10) Os autores que venho lendo e escrevendo e ensinando, há anos, e o que vem acontecendo no Seminário Avançado de 2007/1 “Fantasias de escritura: Deleuze, Blanchot, Barthes”, no Programa de Pós-Graduação em Educação/UFRGS, idem.

11) As scrilleture feitas por professores e orientandos da Linha de Pesquisa 09 Filosofia da Diferença e Educação e pelo Grupo de Pesquisa DIF – artistagens, fabulações, variações – Desde 2002 tiveram uma importância canibalisticamente crucial, enquanto fogueira antropófoga.

12) As sugestões e leituras domingueiras, generosas-atentas-ricas, de meu
amigo Tomaz Tadeu, que radarizaram o que eu não via mais.

13) Com carinho, dedico este Manifesto à mãe de belas viventes Gilcilene Dias da Costa, em sua proposta de tese O mundo tem fome: ensaios de uma trilogia antropofágica, defendida em 10 de outubro de 2006, no PPGEDU/FACED/UFRGS.

Sandra Mara Corazza. Licenciada em Filosofia. Doutora em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Professora Associada da Faculdade de Educação da UFRGS. Trabalha com a filosofia da diferença. Orienta Mestrado e Doutorado. Pesquisa a infância contemporânea, junto ao CNPq. Publicou, além de artigos em revistas especializadas e capítulos em livros: Tema gerador: concepção e práticas (1992), Poder-saber e ética da escola (1995), 4 vidas, 4 estilos, a mesma paixão (1996, co-autoria), História da infância sem fim (2000), pela Unijuí; O que quer um currículo? Pesquisas pós-críticas em educação (2001), Infância & educação: era uma vez... quer que conte outra vez? (2002), pela Vozes; Para uma filosofia do inferno na educação: Nietzsche, Deleuze e outros malditos afins (2002), Composições, (2003, co-autoria) e Linhas de escrita (2004, co-autoria), pela Autêntica; Uma vida de professora, pela Unijuí (2005); Artistagens: filosofia da diferença e educação, pela Autêntica (2006); Os cantos de Fouror: escrileitura em filosofia-educação, 2007 (livro digitado).
http://fantasiasescritura.blogspot.com/
www.dif3z.net

 

 




 



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