VII Colóquio Internacional
"Discursos e Práticas Alquímicas"
LAMEGO - SALÃO NOBRE DA CÂMARA MUNICIPAL
22-24 de Junho de 2007

A INFLUÊNCIA DE HELENA BLAVATSKY
EM ALGUNS ESCRITORES DE LÍNGUA INGLESA
Maria Leonor Telles

Uma das figuras de mulher que exerceu grande influência em alguns sectores intelectuais do mundo anglófono no último quartel do século XIX foi, sem dúvida, Madame Blavatsky. Nascida em 12 de Agosto de 1831, na província russa da Ucrânia, numa cidade situada junto ao Dnieper então chamada Ekaterinoslav (posteriormente Dnipropetrovsk), era filha de pai alemão, o Coronel Peter von Hahn, aristocrata como o nome indica, e de mãe russa, Helena Andreyevna Fedeyeva, romancista.1 Do lado paterno terá herdado a capacidade germânica de trabalho que as suas ponderosas obras revelam (consta que, ao longo de anos, escrevia diariamente durante cerca de doze horas), mas na sua família russa é que se encontram os antecedentes que determinaram quer a sua vocação literária, quer os seus interesses esotéricos. A avó materna, Princesa Helena Dolgorukov, além de estudiosa de botânica, era escritora e, na sua casa de Saratov, para onde a neta foi viver quando, aos onze anos, perdeu a mãe, existia uma importante biblioteca onde não faltavam livros sobre ciências ocultas, pois o pai da Princesa, antigo governador da cidade, tinha sido iniciado na Maçonaria em finais do século XVIII.

Sugerem os biógrafos que a inadaptação de Helena Petrovna ao rígido ambiente aristocrático em que decorreu a sua infância a terá levado a casar, aos dezassete anos2, com um homem de mais do dobro da idade dela, Nikifor Vasilievitch Blavatsky, vice-governador da província de Yerevan na Arménia, com quem não partilharia a vida, mas cujo apelido adoptou a partir de então (à maneira ocidental, diga-se de passagem, que na Rússia deveria usar o feminino Blavatskaia). Nas décadas de 50 e 60 Helena Blavatsky empreende inúmeras viagens, as primeiras na companhia do maçon norte-americano Albert Rawson, e, segundo conta, trava conhecimento com os Mestres, ou Mahatmas, a cuja orientação atribui todo o seu percurso posterior (nomeadamente Mahatma Koot Hoomi e Mahatma Morya de Rajput, que ficarão conhecidos como K.H. e M. entre os teósofos).

Nas palavras de Harban Rai Bachchan: “No decurso das suas viagens, que incluíram visitas a locais tão isolados e recônditos como o Tibete, Java, o Peru, o México, a Turquia, o Egipto, a Palestina, a costa do Mar Negro e o Cáucaso, recolheu e conservou a recordação de todos os mitos, lendas, superstições, crenças religiosas ou ideias filosóficas que encontrou onde quer que fosse pelo mundo fora. O seu maior infortúnio foi padecer de uma memória portentosa. Não conseguia esquecer nada do que tivesse ouvido, lido ou visto. (…)

Madame Blavatsky não era dotada de um espírito criativo ou original. Mas, consciente ou inconscientemente, ela estava à procura de uma síntese que de algum modo englobasse todo o material heterogéneo que tanto lhe pesava no espírito. Queria atingir quaisquer princípios básicos que pudessem ligar e harmonizar num todo único a globalidade dos conhecimentos que adquirira sobre o antigo e o novo, no Oriente e no Ocidente, por meio de livros, bem como por relatos orais. Encontrou esses princípios na sua doutrina de Teosofia.”3

É na década de 70 que Helena Blavatsky começa a desempenhar papel relevante na expansão da sua crença no Ocidente.4 Tendo emigrado para os Estados Unidos em 1873, aí encontra Henry Steel Olcott e William Quan Judge, que com ela fundaram a Sociedade Teosófica (Theosophical Society) em 7 de Setembro de 18755, e que podemos considerar os primeiros a dar testemunho da influência dela nos seus escritos. Quanto ao mais velho, o Coronel Olcott, nascido em 1832, no seio de uma família estabelecida na América desde os princípios da colonização britânica, e antigo combatente da Guerra da Secessão, que presidiu aos destinos da Sociedade Teosófica até morrer, em 1907, é significativo que a sua obra autobiográfica Old Diary Leaves (Páginas de um Velho Diário), tenha sido reeditada com o subtítulo: Inside the occult, the true story of Madame H.P. Blavatsky, revelando até que ponto o nome dela estava indissoluvelmente ligado à história do ocultismo visto do interior. Em relação a William Quan Judge, o primeiro secretário da Sociedade Teosófica, com uma história bem diferente da de Olcott, pois era um emigrante irlandês nascido em Dublin em 1851, que só aos 21 anos se tornou cidadão dos Estados Unidos, bastará dizer-se que o livro The Ocean of Theosophy (O Oceano da Teosofia), que publicou em 1893, três anos antes de morrer, é classificado, em termos de artigo de enciclopédia, como “uma compilação da doutrina esotérica de Blavatsky que constitui uma das melhores e mais compreensíveis introduções à teosofia”.

Se a fundação da Sociedade Teosófica foi um marco importante da acção de Blavatsky na década de setenta, (com a subsequente projecção do seu pensamento na obra dos seus imediatos colaboradores, acima referida como que entre parêntesis), a celebridade que então ganhou em círculos intelectuais mais alargados deveu-se à publicação, em 1877, do seu tratado monumental Isis Unveiled (Isis sem Véu, na tradução corrente), de que os mil exemplares da primeira edição de Nova Iorque se esgotaram em dez dias. Nas 1300 páginas desta obra ambiciosa, Blavatsky denuncia o fanatismo da religião cristã (manifestando particular execração pelos jesuítas) e o materialismo da ciência, propondo, logo no Prefácio, “a filosofia hermética, a Religião da Sabedoria universal dos tempos arcaicos, como a única chave possível para o Absoluto na ciência e na teologia”.   

Helena Blavatsky tornou-se tão famosa que a sua naturalização como cidadã dos Estados Unidos em 8 de Julho de 1878 foi noticiada com algum relevo pela imprensa. Mas ela não permaneceria por muito tempo junto dos seus novos compatriotas. Convencidos de que a Índia, antiquíssimo berço da tradição esotérica, seria o lugar ideal para irradiação da sua doutrina, Blavatsky e Olcott resolveram transferir para lá a sede da Sociedade Teosófica. Chegaram em Fevereiro de de1879 a Bombaim, onde iniciaram a publicação do órgão da Sociedade, The Theosophist (O Teósofo)6, e, embora não tivessem conseguido a desejada aceitação junto das autoridades religiosas hindus,7 granjearam, entre os indianos ocidentalizados, discípulos que, como Mohini Chatterjee, vieram a contribuir para a divulgação da teosofia na Europa. Aí se deu também o primeiro encontro de Blavatsky com Alfred Percy Sinnett, um jornalista de 39 anos, responsável pelo diário inglês de maior expansão na Índia, The Pioneer (O Pioneiro) de Allahabad. Fiel à mentora até à morte (em 1921), Sinnett foi o causador involuntário do episódio mais triste da vida dela, o escândalo em torno das chamadas Mahatma Letters, cartas de que Alfred Sinnett e sua mulher Patience foram os destinatários privilegiados. Tanto Blavatsky como Olcott se tinham tornado oficialmente budistas em 1880, e Sinnett interessava-se particularmente por essa vertente da teosofia: ao seu primeiro livro, The Occult World (O Mundo Oculto), de 1881, seguiu-se Esoteric Buddhism (BudismoEsotérico) em 1883, ambos publicados em Londres, o que, aliás, favoreceu a difusão do interesse pela teosofia nas Ilhas Britânicas. Ora Sinnett procurou documentar-se escrupulosamente sobre a matéria, pedindo aBlavatsky que o pusesse em contacto com os dois Mestres cuja orientação dizia seguir, K.H. e M.; daí resultou a correspondência cuja autenticidade veio a ser contestada e levou Blavatsky a abandonar, em 1885, a Sociedade Teosófica, quando esta estava em pleno florescimento, tendo já em 1882 transferido a sua sede internacional para o bairro de Adyar em Madras, ponto de irradiação para múltiplos centros.

Apesar de Richard Hodgeson, encarregado de investigar o caso das cartas pela Sociedade de Pesquisa Psíquica de Londres (Society for Psychical Research), ter apresentado um relatório demolidor, classificando Blavatsky como “uma das impostoras mais consumadas, engenhosas e interessantes de toda a história” (o que, em inglês, ainda se torna mais gravoso porque “impostors” abrange também o masculino…) e chegando a admitir que ela fosse uma espia russa, os teósofos britânicos não se deixaram convencer. Deles partiu o convite para Helena Blavatsky estabelecer residência em Londres, que ela aceitou em Maio de 1887. A partir de então é em Inglaterra que ela dá continuidade à sua missão, por intermédio da “Loja Blavatsky” (Blavatsky Lodge), com a publicação da revista Lucifer,8 que se destinava “a trazer à luz as coisas escondidas da treva” e, finalmente, concluindo o seu opus magnum, The Secret Doctrine (A Doutrina Secreta), que foi dado à estampa em finais de 1888, em Londres e Nova Iorque simultaneamente.9
Em 1889 Blavatsky cria a Secção Esotérica da Sociedade Teosófica, publica The Key to Theosophy (A Chave da Teosofia) “uma Exposição clara, sob a forma de Perguntas e Respostas, da Ética, Ciência e Filosofia para cujo estudo a Sociedade Teosófica foi fundada” e também The Voice of the Silence (A Voz do Silêncio), excertos traduzidos de O Livro dos Preceitos de Oiro, que Blavatsky teria decorado durante a sua permanência junto dos lamas do Tibete. No último ano de vida – morreu em 8 de Maio de 1891 – criou um círculo íntimo de discípulos10, de que fazia parte Annie Besant, futura sucessora de Olcott na presidência da Sociedade Teosófica em Adyar.

Ao longo desta descrição muito sumária da vida e obra de Helena Blavatsky terá ficado provada a sua influência directa em autores cujos interesses eram afins dos seus. Os nomes deles não se encontram nos manuais de literatura, ainda que se tenham aventurado, como foi o caso de Sinnett, a escrever romance e drama.11 Mas também é possível reconhecer ecos da leitura das obras de Blavatsky em alguns autores canónicos, sendo William Butler Yeats porventura o exemplo mais flagrante a apontar.

Nascido a 13 de Junho de 1865 em Dublin, Yeats muito cedo descobriu a sua vocação literária e decidiu celebrizar-se como poeta. Aos 17 anos, em carta a uma amiga, escrevia convictamente acerca do poema que enviava em anexo:

“Receio que não vá agradar-lhe muito – não estando habituada às minhas peculiaridades a que nunca se fará justiça até [os meus poemas] se terem tornado clássicos e servirem de textos de exame.”12

De facto, passadas quatro décadas, em Dezembro de 1923, Yeats estava a ser agraciado com o Prémio Nobel da Literatura.

Ora, a partir desta consagração, o poeta pôde dar livre expressão a uma outra “peculiaridade” sua, já não propriamente de cariz estilístico: o interesse pelo ocultismo. Este esteve presente ao longo de toda a vida de Yeats, mas revelar-se-á sobretudo nos poemas e nas obras dramáticas que reflectem a mundividência expressa nessa espécie de “tratado de filosofia mística” (termos do autor) que intitulou A Vision (Uma Visão) e onde, segundo nos conta, finalmente realizou aquilo por que sempre ansiara:

“O que eu desejava era um sistema de pensamento que deixasse a minha imaginação livre para criar à vontade e, no entanto, tornasse tudo quanto criasse, ou pudesse criar, parte integrante de uma história única, que fosse a da alma.”13

É em A Vision e, consequentemente, na poesia e nas peças de teatro de Yeats que se inspiram no seu “sistema” que podemos encontrar elementos reveladores da influência de Helena Blavatsky. Sem entrar em pormenores, bastará dizer que ela se manifesta quer em aspectos singulares, como seja o significado simbólico atribuído a certos animais ou figuras (o gato e a criança, por exemplo), quer em concepções abrangentes como as do ciclo lunar e das quatro faculdades.14

O contacto de Yeats com o pensamento de Blavatsky começara por ser indirecto – através da leitura de Esoteric Buddhism de Sinnett, logo após a sua publicação, e, em 1875, por ocasião da visita de Mohini Chatterjee a Dublin em 1885. Só conheceu Blavatsky pessoalmente em 1887, em Londres, onde aderiu à Sociedade Teosófica, tornando-se membro do círculo esotérico, que três anos depois viria a abandonar. As razões que levaram Yeats a afastar-se da Sociedade Teosófica derivaram em parte da sua incapacidade de submeter-se à autoridade incontestada de Blavatsky e dos seus Mahatmas, mas tiveram sobretudo a ver com o seu desejo de explorar os vectores cabalístico e rosacruzista do ocultismo, que o induziram a associar-se, em 1890, à “Hermetic Order of the Golden Dawn” (“Ordem Hermética da Aurora de Ouro”), recentemente fundada na Irlanda.15

Mas não há dúvida de que as reminiscências da leitura das obras de Blavatsky se mantiveram vivas, reflectindo-se em A Vision, não só em aspectos do conteúdo como também na sua concepção ambiciosa como “tratado de filosofia mística”, e até mesmo no que respeita à própria génese da sua elaboração. Na versão publicada em 1937 Yeats substitui a fantasiosa origem da obra relatada na primeira edição16 por uma explicação mais credível: a de que o livro resultara da interpretação de trechos de escrita automática que sua mulher, Georgiana Hyde-Lees, havia produzido ao longo de anos. Ora uma das justificações que Helena Blavatsky apresentava para atribuir aos mestres ausentes a autoria de textos seus era que estes lhe ditavam telepaticamente páginas inteiras, que ela escrevia de modo compulsivo e alheado.

Para concluir, resta acrescentar que a influência de Blavatsky se prolongou bem para além da época de Yeats. Ela é considerada por muitos a figura tutelar da tendência contemporânea apelidada de “New Age”. E, se as suas obras não são hoje conhecidas do público em geral, ela sobrevive através de manifestações epigónicas da sua doutrinação, como comprova o êxito internacional de vendas alcançado por um CD em que Alice Bailey reproduz os ensinamentos que lhe foram transmitidos pelo seu mestre tibetano…

Notas

1 Sob o pseudónimo Zenaida R. escreveu uma dúzia de romances que lhe valeram ser apelidada por Belinsky “a George Sand russa”. Morreu com 28 anos.

2 Na realidade três semanas antes de completá-los, a 7de Julho de 1848. O casamento durou três meses, ao fim dos quais Helena fugiu ao marido. O seu segundo casamento, com Michael C. Betanelly, contraído em 3 de Abril de 1875, também não duraria muito mais: separados passados alguns meses, obtiveram o divórcio em 25 de Maio de 1878.

3 Cf. H.R. Bachchan, W.B. Yeats and Occultism, Delhi, Varnasi, Patna (Motilal Bernasidass), 1965, pp.218s.

4 Em 1871 Helena Blavatsky fundara no Cairo a Societé Spirite, com Emma Cutting (que viria a casar com Alexis Coulomb, provocando ambos o escândalo que levou Blavatsky a abandonar a Índia em 1885). O projecto acalentado de partir da doutrina da Allan Kardek para a teosofia falhou e a sociedade dissolveu-se.    

5 Os restantes treze sócios fundadores foram Charles Sotheram, Dr. Charles E. Simmons, W.L. Alden, G.H. Felt, J. Hyslop, D.E. de Lara, C.C. Massey, E.D. Monachesi, Henry J. Newton, H.M. Stevens, John Storer Cobb, Dr. Britten e sua mulher.

6 O primeiro número saiu em Outubro de 1879 e a publicação continuou até aos nossos dias.

7 Swami Dayanand, fundador da organização religiosa hindu mais importante desse tempo, Arya Samaj, recusou todo o relacionamento com a Sociedade Teosófica, segundo conta Olcott em Old Diary Leaves.  

8 O significado atribuído por Blavatsky à palavra é “estrela matutina, estrela de alva, o portador de luz”.

9 Para a publicação desta obra Blavatsky contou com a ajuda editorial e financeira de um dos membros fundadores da Loja Blavatsky, Bertram Keightley e de seu sobrinho Archibald Keightley. O primeiro veio a publicar em 1931 Reminiscences of H.P. Blavatsky.

10 Deste Inner Circle, formado em Agosto de 1890, faziam parte, além de Annie Besant, a Condessa Constance Wachtmeister, Isabel Cooper-Oakley, Emily Kislingbury, Laura Cooper, Alice Cleather, Archibald Keightley, Herbert Coryn, Claude Wright, G.R.S. Mead, E.T. Sturdy e Walter Old.

11 Publicou Karma: A Novel, em 1885 e Married by degrees; a play in 3 acts em 1911.

12 “To Mary Cronin”, in The Collected Letters of W.B. Yeats, vol. 1, 1865-95, Oxford (Clarendon Press), 1986, p5s.

13 George Mills Harper & Walter Kelly Woods (Eds.) A Critical Edition of Yeats’s AVision (1925), London & Basingstoke (Macmillan), 1978, p.xi.

14 Cf. Bachchan, op. cit., onde o cap. 5, “Theosophy and Madame Blavatsky” (pp. 217-257) apresenta os resultados de uma minuciosa investigação sobre esta matéria.

15 Entre os fundadores da Ordem destacava-se Samuel Lidell Mathers, que, em 1887, publicou The Kabbalah Unveiled – Translated into English from the Latin version of Knorr von Rosenroth, and collated with the original Chaldee and Hebrew text by S.L. MacGregor Mathers.

16 Na primeira edição de A Vision, datada de 1925, embora publicada em Janeiro de 1926, a origem da obra é relacionada com a descoberta de um misterioso livro, “escrito por Giraldus e impresso em Cracóvia em 1504”, intitulado “Speculum Angelorum et Hominorum”. O erro no último genitivo plural bastaria para reconhecer tratar-se de pura invenção de Yeats (cuja escolaridade deixava muito a desejar).

INICIATIVA:
Centro Interdisciplinar de Ciência, Tecnologia e Sociedade da Universidade de Lisboa (CICTSUL)
Instituto São Tomás de Aquino (ISTA)
www.triplov.org

Patrocinadores:
Câmara Municipal de Lamego
Junta de Freguesia de Britiande
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