VII Colóquio Internacional
"Discursos e Práticas Alquímicas"
LAMEGO - SALÃO NOBRE DA CÂMARA MUNICIPAL
22-24 de Junho de 2007

A desmaterialização do corpo na
concepção pós-moderna da hipernarrativa

José Augusto Mourão (UNL-DCC)

INDEX

Resumo
Introdução
Manifesto for Cyborgs
Ciberficção
A literatura electrónica
Desencarnação ou co-evolução?
Coda

Introdução

Aquilo que se designa hoje como “efeito Web” manifesta-se como um paradigma em ascensão, não apenas ao nível da conceptualização como, e acima de tudo, da redefinição das relações entre a experiência e a técnica. A mudança tecnológica transformou as fundações materiais da vida humana no tempo e no espaço. As anteriores formas de mediação (escrita, cinema, fotografia, pintura) foram profundamente afectadas por este processo global e multidimensional de imaterialização dos interfaces humanos. As anteriores categorias que fundamentavam as sociedades ocidentais – sujeito/objecto, real/virtual, corpo/máquina, indivíduo/comunidade, passado/presente, etc. – parecem insuficientes para sustentar todo um novo conjunto de fenómenos ligados às redes em que a própria técnica, ao mesmo tempo que se oculta sob essa imaterialização, parece desempenhar o mais activo dos papéis, superando todas as tentativas para controlar e estabilizar racionalmente este processo. O mundo hoje evocado sob a designação de “cibercultura” tem os seus utopistas e os seus apocalípticos: aqueles que sustentam a proliferação da diferença (ubiquidade, caos ou fuga) e a promessa duma democracia electrónica (John Barlow, Nick Negroponte, Pierre Lévy, Charles Ostman) como uma panaceia, e os profetas da desgraça, coristas do declínio do mundo clássico (Virilio, Baudrillard) para quem a “obscenidade global” (Eisenstein, 1998) das relações de poder, as exclusões estruturais e as formas de domínio mostram a vanidade das promessas de libertação das novas tecnologias.

Estamos, segundo Paul Virilio, no limiar da terceira revolução tecnológica: a primeira envolvia o transporte (máquina a vapor, motor eléctrico); a segunda a transmissão (rádio, televisão, Internet); a terceira a miniaturização dos objectos (a revolução dos transplantes) (1). A nanotecnologia e a miniaturização implicam formas evidentes de modificação do corpo. Esta terceira forma de revolução tecnológica remete-nos para o horizonte do pós-modernismo cultural que agora aparece claramente como um processo de desnaturação global. Dizemos que tal produto está desnaturado quando a sua composição química natural é alterada por aditivos. Nas palavras de K. Hayles “O processo de desnaturação é, pois, um dos progressos técnicos que ajudou à constituição do pós-modernismo cultural”(2). Este processo afecta não apenas a linguagem, como também o contexto, o tempo e o humano. O pós-moderno vai antecipar e implicar o pós-humano. Com o advento das novas tecnologias, a dinâmica dos signos altera-se. “À medida que se deslocam das inscrições planas e duradouras do texto impresso para as hierarquias do código característico das tecnologias de comunicação eléctricas e electrónicas…O significado, a tecnologia e a subjectividade evoluem conjuntamente”(3). A questão que se coloca Hayles: “Como pode escrever-se sobre pós-modernismo sem ter a consciência aguda de que aquilo que se escreve é em si mesmo uma construção no enlace pós-moderno”(4) tem efectivas consequências para a ficção narrativa. O que pode representar melhor a desnaturação do humano do que Frankenstein?

Está instalado no campo das letras o debate entre a narratividade tradicional e a textualidade interactiva, entre obra digital e narrativa entre teóricos notáveis: G. Landow, J. Murray, E. Aarseth, K. Hayles. A obra tipicamente digital, ou o “objecto dos novos media” é nos termos de Manovich,. “uma colecção de itens sobre os quais o utilizador realiza várias operações – ver, navegar, procurar”(5). O digital seria a complexidade, a fluidez, a resistência á totalização, a aporia, a auto-organização, diferentemente da narrativa, que é uma forma de organizar a experiência, que tem a sua lógica interna, a sua sequência, a sua clausura. A tecnocultura popular (televisão, filme, e vídeo) já tinha, de resto, alterado substancialmente a imagem da mulher. As novas narrativas questionam profundamente as “grandes narrativas” e, em primeiro lugar, a posição dominante do sujeito (e da mulher). Os novos media propiciaram o aparecimento de narrativas que subvertem os constituintes básicos da narratividade: enredo, personagens, temporalidade, causalidade. As máquinas humanas tornaram-se capazes de processar estruturas infinitamente mais complexas do que as sequências de acontecimentos lineares. The Three Stigmata of Palmer Eldricht (1965) de Philip K. Dick, um romance que trata a droga como uma tecnologia da comunicação, antecipa o regime da computação, uma vez que a própria realidade é conceptualizada como uma espécie de simulação a correr no Computador Universal e em que a desconstrução do eu ocorre de forma devastadora. A transubstanciação operada no interior de uma economia da informação muda radicalmente a natureza da subjectividade. A uma nova realidade (tecnocientífica) deve corresponder uma nova carne. O cruzamento dos humanos com as máquinas, cada vez mais inteligentes, está a reconfigurar a relação dos corpos no interior dos textos. A ficção científica (Philip K. Dick, James Ballard) e o cinema (Cronemberg, Ridley Scott) anunciam a chegada da “Nova carne”, resultante da combinação da electrónica e da biologia. A figura central de Blade Runner é um replicante, em que o corpo se apresenta completamente reificado. Diga-se, entretanto que a fusão do organismo humano e dos mecanismos cibernéticos tornou-se um facto, e não apenas na ficção. O Neuromancer de Gibson está cheio de personagens que implantaram nos seus corpos inúmeros dispositivos de cibernética, mas os ciborgues existem. Cerca de 10% da população dos USA são ciborgues, incluindo pessoas que têm pacemakers electrónicos, lábios prostéticos e pele artificial (Hayles, 2000: 277).

(1) Cf. J. Armitage, “From Modernism to Hypermodernism and Beyond: An Interview with Paul Virilio” Special Issue on Virilio, Body & Society 16 (5), p. 25-54.

(2) Katherine Hayles, Chaos Bound. Orderly Disorder in Contemporary Literature and Science, Cornell University Press, Ithaca and London, 1990, p. 266.

(3) N. Katherine Hayles, My Mother Was a Computer. Digital Subjects and Literary Texts, The University of Chicago Press, Chicago and London, 2005, p. 64.

(4) Ibidem , p. 293.

(5) Lev Manovich, The Language of New Media. Cambridge, MIT Press, 2001, p. 219.

INICIATIVA:
Centro Interdisciplinar de Ciência, Tecnologia e Sociedade da Universidade de Lisboa (CICTSUL)
Instituto São Tomás de Aquino (ISTA)
www.triplov.org

Patrocinadores:
Câmara Municipal de Lamego
IDP - Complexo Desportivo de Lamego
Junta de Freguesia de Britiande
Paróquia de Britiande
Dominicanos de Lisboa

Fernanda Frazão - Apenas Livros Lda
apenaslivros@oninetspeed.pt

 

 

 




 



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