VII Colóquio Internacional
"Discursos e Práticas Alquímicas"
LAMEGO - SALÃO NOBRE DA CÂMARA MUNICIPAL
22-24 de Junho de 2007

Presença do Feminino nos Relatos de Viajantes:
Caminha, Vespúcio e Carvajal
Por: GLEDSON SOUSA*

Sinopse

Localizar, nos textos dos viajantes escolhidos – Caminha, Vespúcio e Carvajal – a presença do feminino nos relatos de viagens, tanto o discurso que é eco do discurso sobre a mulher praticado na Europa, quanto aquilo que é um novo discurso, uma nova imagem, promovido pelo impacto da presença nativa no continente recém encontrado.

I – Antes do Início (antecedentes)
A Fixação do Discurso

Está lá, nos primórdios desse cristianismo que está na base, na formação da Europa, o germe das regras e dos discursos que definirão o papel da mulher, do feminino, na sociedade; a retórica que delimitará de maneira precisa não somente a legislação, mas também como será a presença do feminino no imaginário coletivo, regulando assim, além da ordem, a presença do desejo e da mulher, protótipo do próprio desejo.

O abandono do corpus jurídico romano, no início da idade média, não significou a substituição deste por outro de alcance universal, mas sim pela presença de códigos regionais bem mais empíricos – código galo, código germano, etc -, onde, de qualquer maneira, a mulher já encontra seu espaço previamente delimitado, faltando ainda, nesse começo de idade média, o verniz da retórica cristã, que depois cobrirá todos os atos e interstícios da vida.

É São Paulo quem insere no cristianismo esse elemento misógino que exige da mulher submissão e silêncio. Em Éfesos,5,22, ele diz:

Vós mulheres, sujeitai-vos a vossos maridos, como ao senhor; porque o marido é a cabeça da mulher, como também Cristo é a cabeça da igreja, sendo ele próprio o salvador do corpo. De sorte que, assim como a igreja está sujeita a Cristo, assim também as mulheres sejam em tudo sujeitas a seus maridos.

Ou em Colossenses,3,11:

Vós mulheres, estais sujeitas a vossos próprios maridos, como convém no senhor.

No capítulo 3 da 1a. Carta a Timóteo, as observações feitas sobre as viúvas dão a tônica daquilo que depois será usado como retórica – em parte – na caça às bruxas: a única viúva aceita é a viúva pobre, que não casou de novo e que não demonstra apetites carnais, como se o desejo pudesse ser extirpado da carne de quem o deseja.

A retórica paulina voltará repetidas vezes – de maneira alusiva ou direta – à boca de inquisidores e torturadores do poder secular, porque ela delimita o espaço geográfico em que a mulher poderá circular e, além do mais, torna claro a autoridade masculina como emanada do próprio deus – a dominação do homem sobre a mulher está inserida na lógica do mundo desde Adão e Eva: num universo criado por um deus masculino, a imagem e existência da mulher é quase um acidente.

Claro que essa visão, nos primórdios do cristianismo, não é uniforme em todos os grupos, porque, como o demonstrou Elaine Pagels, não houve a uniformidade e coesão que a igreja tenta nos passar acerca dos primórdios do cristianismo, e outros grupos, entre os quais estavam os gnósticos, reivindicavam uma condição diferente para a mulher, como diferentes eram suas concepções sobre deus, incluindo aí uma concepção de um deus pai/mãe (como a gnose também não era coesa e uniforme, também entre os gnósticos havia misoginia). Mas a ortodoxia cristã aparou as arestas, aplainou o terreno, e já pelo século III d.C. os grupos não ortodoxos passaram a ser perseguidos pelo poder secular como heresias: a uniformidade cristã nascia à base da violência.

A passagem de uma Europa pagã para uma Europa cristã indica uma ruptura gradual e lenta de crenças e costumes profundamente arraigados no povo para um cristianismo, digamos assim, popular. Entre os celtas, p.e., onde a presença de deidades femininas era uma constante, a penetração do cristianismo foi realizada através de um amálgama, uma fusão de deuses, mitos e crenças – como no ciclo arturiano -, mas um dos resultados da presença cristã será a diminuição do status da mulher na sociedade celta.

Ou seja, nos séculos que antecedem os relatos de nossos viajantes, o feminino estava subjugado, amordaçado e a mulher ocupava os extremos do imaginário: ou era a santa assexuada (como a virgem Maria ou Santa Radegunda) ou a bruxa lasciva e obscena, sexualmente faminta e capaz de sujeitar os homens ao seu poder através da magia diabólica.

Claro que os discursos são recortados; ou melhor, muitas são as vozes, muitos são os discursos sobre a mulher – do folclore ao discurso dos magistrados, do sermão aos manuais de caças às bruxas – como o Malleus Maleficarum – o espaço por onde a mulher européia irá circular está claramente delimitado: entre o silêncio e a servidão. Anda-se entre extremos: o homem, na sociedade; a mulher, sob a sociedade. Não que as mulheres tenham aceitado passivamente essa perda de status; mas o que se pode fazer quando o espírito da época o condena?

Nossos viajantes carregarão além mar essa visão recheada de estereótipos, e os povos que encontrarão realizarão a catarse de, ou confirmar, do outro lado do Atlântico, a natureza animal e inferior da mulher ou colocá-los (aos viajantes) em choque com aquilo que parece ser o maravilhoso, mas que é nada mais nada menos que espelho.
A Carta de Caminha – Uma Visão do Paraíso

A carta de Caminha é um dos registros mais controversos acerca do Brasil: a visão que Caminha tem da terra do Brasil nos breves dias em que a frota de Cabral esteve aqui, é complexa e elaborada, a ponto de ter se colocado em dúvida se a escritura da carta realmente foi feita nos breves dias em que ele por aqui passou – o historiador argentino Luiz. L. Domingues serviu-se da carta do Mestre João para declarar que a carta de Caminha era apócrifa (Simões,1999). A carta é detalhada e precisa em descrições, bem como coerente com o périplo da navegação de Cabral.

Mas as descrições que Caminha faz da terra e do povo, são carregadas de sentido, ou seja, atribuem à terra encontrada nomes e valores da terra européia: à mandioca, chamará de inhame (o inhame é africano) (Cascudo,2006); à terra desconhecida conferem-lhe atributos de paraíso, lugar imaculado, à espera da redenção.

É contraditório que os habitantes do paraíso precisem de redenção, mas é assim na visão de Caminha:

Parece-me gente de tal inocência que, se nós os entendêssemos e eles a nós, seriam logo cristãos, porque eles não têm nem entendem em nenhuma crença, segundo parece. (Simões,1999)

Ainda que fique claro, para nós, quais eram os objetivos da viagem – de caráter comercial, de conquista -, o olhar de Caminha é permeado pela visão de que o indígena encontrado é alguém no estágio zero da cultura, sem história e sem crença, visão esta já refutada pela antropologia e historiografia contemporânea(Cunha,1992). Inocente, isto é, sem valores, pronto a ser moldado, matéria plástica para a civilização cristã.

Se a terra lembra as de “Entre o Doiro e o Minho”, os povos encontrados não remetem a ninguém a não ser a Adão:

Assim, senhor, que a inocência desta gente é tal que a de Adão não seria mais, quanto à vergonha. (Simões,1999)

Acima de tudo, a maior fonte de surpresa é a mulher: a visão dos corpos femininos nus, expostos ao olhar e à cobiça masculina, é de tal natureza que Caminha não se cansará de falar da beleza desses corpos. A primeira referência de Caminha sobre a mulher nativa diz:

Ali andavam entre eles três ou quatro moças bem moças e bem gentis com os cabelos muito pretos e compridos pelas espáduas e suas vergonhas tão altas e tão cerradinhas e tão limpas das cabeleiras que de nós muito bem a olharmos, não tínhamos nenhuma vergonha.

Aqui, duas palavras sintetizam o discurso de Caminha: gentis e vergonha. Gentis é uma palavra de conotações dantescas, não no sentido infernal com que o adjetivo se reveste, mas dantesca remontando à Vida Nova, à tradição trovadoresca – alude à mulher que é mais que uma simples fêmea,que é prenhe de virtudes e qualidades que a colocam acima da mulher comum – a gentil mulher é aquela que naturalmente faz um apelo à transcendência. Não que Caminha tenha se utilizado deliberadamente do adjetivo com consciência de suas ressonâncias literárias; mas atribuir às indígenas que encontrava uma disposição gentil é deliberadamente interpretar a atitude conforme uma tendência de fora; não que elas não fossem gentis – mais propriamente seriam corteses; pelos menos esse grupo, provavelmente botocudos: o que Caminha faz, que será repetido à exaustão pelos cronistas, viajantes e historiadores, enfim, pelo colonizador, é achar que os povos encontrados não têm história, que eles são tábula rasa a esperar a redenção pela cristandade. A segunda palavra, vergonhas, não chega a constituir um ato falho,mas nos trocadilhos feitos por Caminha se revela a ponta da ambigüidade sexual, do prazer quase voyeurístico de contemplar assim tão de perto os corpos nus e suas vergonhas e, ao mesmo tempo, a culpabilidade do desejo, que se revelará no ato de cobrir à indígena que fora assistir à missa e que ali deitara, nua com as vergonhas à vista.

As outras referências que aparecerão sobre a mulher transitarão sob essa dupla imagem, desejo e culpa, gentis e vergonha(s). A segunda referência diz:

E uma daquelas moças era toda tingida, de fundo acima, daquela tintura, a qual, é certo, era tão bem feita e tão redonda a sua vergonha, que ela não tinha, tão graciosa que muitas mulheres de nossa terra, vendo-lhe tais feições, fizera vergonha por não terem a sua como ela. (Simões,1999)

Se desfruta do olhar, da chance de equiparar belezas, comparar formatos, avaliar naturezas. O estranho remete ao maravilhoso e o maravilhoso é a presença dos corpos nus, e mais do que os corpos nus, da inocência com que são expostos, inocência esta que fará com que os portugueses ardam de ambigüidade: os corpos podem ser vistos, ali a inocência protege a nudez; mas será que ela redime o desejo?

Não, o que deve ser redimido é a inocência, o desejo persistirá sempre, e com ele o pecado, a mancha, a necessidade de reparação moral: como diria Nietzsche, o cristianismo transformou a sexualidade em um mal – como a sexualidade é uma necessidade natural, fez com que o mal fosse necessário, que a miséria interior fosse necessária. A inocência não pode mais existir: ela era um atributo de Adão e Eva, antes da queda. Depois da vinda de Jesus Cristo, todos foram redimidos e a inocência não se faz mais necessária: é preciso o sal amargo da razão cristã.

Mas a razão cristã, no século XVI, começaria a caça às bruxas, essa grande guerra contra o feminino, e se a carta de Caminha transita entre o desejo e a inocência, as de Vespúcio, em contrapartida, projetam sobre a mulher indígena outra imagem da mulher: lasciva, antropófaga, ninfomaníaca, bruxa. São prenúncios do que está por vir.

“Mas o melhor fruto que nela se pode fazer, me parece, que será em salvar essa gente, e esta deve ser a principal semente que vossa alteza nela deve lançar”.

Acontece que quem aqui estava não queria ser redimido: eles só queriam viver.
Vespúcio

A trama é muito complexa: na maior parte das vezes, o que não se enuncia é que determina a lógica do discurso; a carta de Caminha pode ser o documento oficial de uma “descoberta” ou achamento já premeditado, o relatório de uma missão, mas nem por isso deixa de ter suas implicações simbólicas ou, dizendo de outra maneira, suas conotações ideológicas. Pela não divulgação da carta em sua época, provavelmente ela teve um caráter oficial, portanto sigiloso, sua não divulgação significou seu silêncio involuntário.

As cartas de Américo Vespúcio sofreram o processo inverso, uma ampla divulgação. Mal Vespúcio terminou sua primeira viagem de exploração pelo novo continente e seu feito já era conhecido em boa parte da Europa. Certo que o texto de Vespúcio que foi publicado e que teve uma enorme repercussão foi a carta Mundus Novus, que é considerada apócrifa. Mas isso de momento não importa. O que importa é o que se esconde por trás do sujeito enunciador, os valores que são apresentados no discurso que são o recorte de uma época, o instantâneo de uma mentalidade prevalecente.

O novo(velho) continente representou um choque na mentalidade européia, e o contato com ele será marcado pela constante surpresa, deslumbramento e perplexidade; num segundo momento já estariam claras as intenções de exploração, que fariam com que o colonizador tivesse que deformar o continente encontrado – ou seja, dominar as culturas, criar um discurso ideológico sobre elas e colocá-las na ordem européia do mundo – para poder dominá-lo e os discursos de Vespúcio expressam bem os diversos modos do colonizador enxergar o novo mundo.

Mas em que ordem colocar a nova terra ? Não tanto a nova terra, mas o homem da nova terra ? E a mulher (do novo mundo), como encaixá-la na nova ordem do mundo ? Nesse sentido, a carta Mundos Novus, apesar de ser apócrifa, é ela que terá a maior circulação e que ajudará a fixar uma imagem do novo mundo, incorporando, canibalizando conceitualmente esse rol de novidades que será batizado de América, tornando-o aceitável, digerível, fagocitando o mundo novo às visões européias.

A surpresa começa pelos povos:

Encontramos naquelas regiões tanta multidão de gente quanto ninguém poderá enumerar, como se lê no Apocalipse, gente, digo, mansa e tratável. Todos de ambos os sexos, andam nus, sem cobrir nenhuma parte do corpo, como saem do ventre materno, assim vão até a morte. (Vespúcio,2005)

Seria esta gente passível de redenção ? Em que lugar estariam na grande ordem do mundo ? As mulheres,

As mulheres deles, como são libidinosas, fazem intumescer as virilhas dos maridos com tanta crassidão que parecem disforme e torpes; isto por algum artifício e mordedura de alguns animais venenosos. Por causa disso, muitos deles perdem as virilhas – que apodrecem por falta de cuidado – e se tornam eunucos. (Vespúcio,2005)

Não há regras, leis morais, exogamia:

Tomam tantas mulheres quantas querem: o filho copula com a mãe; o irmão, com a irmã; e o primo com a prima; e o transeunte, as que cruzam com ele. (Vespúcio,2005)

Como em Caminha, a visão dos corpos nus das mulheres desperta o desejo, mas um desejo já marcado pela culpa, culpa essa que é remetida não a quem o sente, mas a quem o provoca:

As mulheres, como disse, embora andem nuas e sejam libidinosíssimas, têm contudo os corpos formosos e limpos, não são tão torpes quanto talvez se pudesse estimar porque, já que são carnudas, aparece menor a sua torpitude, a saber, é coberta pela maior parte da boa qualidade da corporatura. Extraordinária visão para nós é que, entre eles, nenhuma parecia que tivesse as mamas caídas. E as que pariam, nada se distinguiam das virgens na forma e na contratura do ventre; pareciam iguais nas partes restantes dos corpos, o que omito de propósito, por virtude. Quando podiam juntar-se aos cristãos, impelidos pela forte libido, contaminavam e prostituíam toda pudicícia.

O desejo revela: aquilo que o discurso afirma moralmente, a saber, que as mulheres do novo continente são despudoradas e libidinosas, na realidade esconde o desejo – claro e manifesto – naquilo que o discurso omite, as partes restantes do corpo - “o que omito de propósito, por virtude”.

Levará alguns séculos até que a antropologia consiga estudar e se aproximar das outras culturas reconhecendo nelas suas especificidades, como Malinowski tentaria em A Vida Sexual dos Selvagens, sobre os nativos das ilhas Trobriand. Naquele momento, viajantes como Vespúcio só se preocupam em reconhecer a terra, não os povos que estão nela; os povos farão parte da paisagem quase que como um acidente a atrapalhar a conquista.

Por isso que não se procura reconhecer o outro, descobrir o outro: aquele que não sou, não me interessa, só consigo reconhecer aquilo que me assemelha, o outro será sempre estranho. A civilização é egocêntrica.

Mas o que é estranho à civilização européia do século XVI? Judeus, hereges, ciganos, bruxas e, de certa forma, as mulheres. O século XVI marcará o início de um dos piores momentos para as mulheres, aqueles em que seu status social atinge um dos mais baixos patamares da história, numa redução tal de direitos que pode-se dizer que a mulher do século XVI possuía menos direitos que as mulheres do início do império romano; a mulher é a permanente ameaça de desequilíbrio, de dissolução de princípios; a mulher traz em si os elementos de uma descivilização. O que dizer então dessa outra mulher de uma terra desconhecida, frente à qual a mulher européia parece um animal enfraquecido e domesticado ? Basta lembrar as comparações da carta de Caminha e da Mundos Novus, entre os corpos jovens e sensuais das indígenas e os corpos enfraquecidos, flácidos, das européias. Essa outra mulher só pode ser uma abominação. Ou perfeição.

Porque o contato com essa terra nova oscilará sempre, no plano do imaginário, entre os extremos: é às vezes a imagem do paraíso e seus habitantes são inocentes; outras vezes, são vistos como seres pervertidos, em que a ausência de leis revela uma inclinação permanente para a barbárie:

Nenhuma lei, nenhum legítimo direito conjugal observam nos matrimônios; antes, qualquer um pode ter quantas mulheres deseja e depois repudiá-las quando quiser, sem que se considere o fato injúria ou desonra.(...) São pouco ciumentos, mas sumamente libidinosos, mais as mulheres que os homens: julgamos que devemos aqui calar, por pudor, os artifícios delas para satisfazer sua libido insaciável. São fecundíssimas para gerar filhos e durante a gravidez não evitam penosos trabalhos. Parem com levíssima, quase nenhuma dor, de modo que, no dia seguinte, já caminham alegres e refeitas, por toda parte. Em especial, depois do parto, vão lavar-se em algum rio, de onde reaparecem sãs e limpas como peixes. São elas capazes de entregar-se a tal crueldade e ódio tão maligno que, se por acaso os maridos as importunam, logo preparam certos venenos com o qual movidas por imensa ira, matam no útero os próprios fetos e em seguida abortam, motivo porque morrem inúmeras crianças. Têm o corpo belo, elegante e bem proporcionado, e não se lhes pode ver nenhum defeito. E, ainda que andem nuas, as partes pudendas são tão decorosamente colocadas entre as pernas que não se pode vê-las. Além disso, aquela região anterior que, para usar palavra mais pudica, chamamos púbis, nelas é também algo que a própria natureza dispôs de maneira que nada se vê que não seja honesto.(...) Mostram-se muito desejosas de unir-se a nós.

Gestos, corpos, povos: o outro passa a ser estranhamente eu. A descoberta do outro, aquele que será chamado de homem americano, não melhora a convivência do homem europeu consigo mesmo – o novo continente ou será inferno ou paraíso.

Mas fixemo-nos nos contrastes: na carta de Caminha há, apesar de toda ambigüidade presente, um fascínio por essa outra mulher – ela é a beleza inocente, a sedução inconseqüente, parecem, essa mulheres, eternas adolescentes, sem entenderem o poder de sua beleza nem do poder de sedução de seus corpos. Em Vespúcio não: a mulher americana continua bela, mas é quase um demônio da sedução, uma criatura hiper-sexuada, conhecedora de sortilégios, segredos sexuais e também uma perfídia capaz de levar à morte. Um súcubo ?

A carta de Caminha é a carta de um escrivão obscuro, que passará incólume no seu século. As cartas de Vespúcio confundem-se no jogo do tempo: a Mundos Novuse As Quatro Navegações são consideradas apócrifas pelos especialistas; a Carta de Sevilha, a de Cabo Verde e a de Lisboa, são consideradas autênticas, mas a Mundos Novus, mesmo sendo apócrifa, trará fama a Vespúcio e expressa, em larga medida, uma visão de mundo própria à época, uma mitologia de fundo popular tomada de empréstimo das literaturas a la Marco Polo, mas que dão a tônica geral do que será também o pensamento colonizador: a supremacia do colonizador, a barbárie dos povos encontrados, a necessidade do cristianismo.

Ambas são retratos de encontros fugazes: de poucos dias, em Caminha; de duas viagens, onde pouco reconheceu de cada povo, em Vespúcio. São mais retratos de uma época que registros fidedignos. Uma terceira narrativa trará uma outra imagem da mulher e do continente: a de Frei Gaspar de Carvajal.
A Relación de Frei Gaspar de Carvajal

A Relación de Frei Gaspar de Carvajal é, entre as narrativas de viagem que estudamos, a que mais se reveste de caráter mítico. Acompanhamos com atenção a desditosa aventura de Francisco de Orellana, capitão da coroa espanhola. Talvez a própria terra seja mítica, a Amazônia, a floresta quase indomável. É preciso que contemos um pouco da história: em 1541, Gonzalo Pizarro, irmão de Francisco Pizarro – conquistador do Peru -, saiu, de Quito, numa expedição em busca do El-Dorado; mandará, à frente da expedição, ao capitão Francisco de Orellana, que se perderá, com um grupo de cerca de 50 homens, do restante da expedição, ao descer o Rio Grande, hoje Amazonas, em busca de alimento. A relação de Frei Gaspar de Carvajal narra essa expedição acidental, a qual foi a primeira navegação completa do Rio Amazonas.

Não é de se admirar que a narração de Carvajal seja tomada, de ponta à ponta, pelo maravilhoso. Não que Carvajal queira fabular o tempo todo: é a realidade quem fabula, é o mundo que por si só é estranho, quase indecifrável; não é um mundo incomunicável – Carvajal nos torna cônscios desse mundo a cada palavra, mas é um todo indecifrável. Real, tão real que sentimos a dor que ele sentiu ao ser flechado em um dos olhos; mas paira uma presença soberana sobre aquelas vastas regiões inóspitas, uma voz que se ouve pela boca dos diferentes nativos que a expedição encontrará ao longo do rio: é a voz das amazonas. Primeiro, pela boca de um velho índio chamado Aparia, que lhes fala sobre a terra das amazonas e das riquezas que elas possuíam. Depois, num momento em que o cap. Francisco de Orellana explica a outros nativos que aquelas terras são agora posses do “grande rei de Espanha, chamado Dom Carlos, nosso senhor”, os nativos recomendaram que eles fossem ver as amazonas, que eles chamavam de Coniupuiara, que significa grandes senhoras.

Depois, numa outra passagem memorável, pelo que tem de maravilhoso na descrição, Carvajal nos conta que:

Neste dia paramos em uma aldeia média, onde as pessoas nos receberam. Nesta aldeia havia uma praça enorme e no meio dela um grande painel de dez pés lavrado em relevo; o desenho era de uma cidade com sua cerca e uma porta. Nesta porta estavam duas torres muito altas com janelas, cada torre tinha uma porta em frente à outra e em cada porta estavam duas colunas e toda obra descrita era sustentada por dois leões muito ferozes que olhavam para trás, temerosos um do outro(...) Enfim, o edifício é coisa digna de ser vista, e o capitão e todos nós, espantados com aquilo, perguntou a um índio capturado, o que era ou porque razão mantinham aquilo na praça, ao que o índio disse que eles eram súditos e tributários das amazonas, e que forneciam penas de papagaios e guacamaios para o forro dos tetos das casas de seu templo e que as aldeias que elas tinham eram daquele jeito, e para recordação ficavam ali, como forma de adoração do símbolo de suas senhora, que domina toda a terra dessas mulheres. (Carvajal, 1992 )

Coniupuiaras. Grandes senhoras. A presença desse feminino indefinível e indomado é a expressão do próprio continente, que deveria chamar-se Amazonas e não América: esse feminino pulsante, sensual e forte, esse feminino das grandes senhoras – senhoras da vida e da morte, da beleza, do dia e da noite, é a síntese do espírito imaginário da América, sua alma do mundo; enquanto a expedição de Orellana cruza a floresta navegando pelo Rio Grande (ou Marañon), cresce a tensão em direção à presença das coniupuiaras, senhoras das terras verdes. Em mais uma batalha, das tantas que enfrentaram, eles as encontram:

Estivemos nesta luta mais de uma hora sem que os índios recuassem, pareciam, ao contrário, mais dispostos mesmo que muitos dos seus fossem mortos, mas passavam por cima deles e quando muito, recuavam para voltar a atacar. Quero que saibam a razão porque os índios lutavam dessa maneira. Acontece que eles são súditos e tributários das amazonas, e sabendo da nossa vinda, pediram socorro a elas, que mandaram de 10 a 12. pois nós a vimos. Elas estavam lutando como líderes na frente dos índios e lutavam tão decididamente que os índios não ousavam nos dar as costas, pois aqueles que fugissem de nós elas matavam a pauladas.(...) Estas mulheres são muito brancas e altas e têm longos cabelos trançados e enrolados na cabeça, são musculosas e andam nuas em pelo, cobrindo sua vergonha com os arcos ou as flechas nas mãos lutando com dez índios.

Depois, em outro episódio, eles descobrem o modus vivendi das coniupuiaras pela boca de outro nativo: que as cidades delas são de pedras; que não há homens nas cidades; que elas só procuram os homens para se reproduzirem; que são ricas e que a terra onde vivem é fria e distante. Carvajal não pensará duas vezes, vai chamá-las de amazonas, as mesmas dos mitos gregos, como Hipólita e Pentesiléia. As amazonas são os antípodas morais das mulheres européias do século XVI: são livres, senhoras de si, independentes e não trocam sua liberdade por nada.

Carvajal não as julga. Salienta sua força e coragem no combate que travaram, ainda que das 12 amazonas que eles enfrentaram ele afirme que 7 ou 8 tenham morrido pelas mãos espanholas, a pólvora superando a lança e o tacape.

No continente novo, a mulher vista é enigma e projeção: enigma porque não corresponde aos valores europeus, à imagem já padronizada da mulher; num segundo momento, a mulher vista já corresponde ao conceito, porque já foi projetado sobre ela os valores europeus, deformando o imaginário e a identidade.

Os relatos dos viajantes apontam somente parte do discurso praticado na Europa, porque os próprios viajantes se deixavam envolver e fascinar pelo novo mundo, perplexos e, ao mesmo tempo, envolvidos pelas novas paisagens e rostos vislumbrados.

Se Frei Gaspar de Carvajal viu ou não as amazonas é um detalhe que foge do escopo desse trabalho; não procuramos verossimilhança histórica, procuramos as imagens do feminino que pairavam na mente européia, principalmente na mente européia masculina, e o que se projeta não é só o desejo sexual, mas a imagem de um feminino que é outro, um feminino forte, selvagem e sensual, capaz de domar os homens e curvar os poderes; em Caminha, a inocência a ser redimida; em Vespúcio, a fome do sexo e em Carvajal, a mulher além, a senhora a quem os homens se curvam. Três manifestações de uma mesma natureza: naquele momento, não do feminino, mas o espelho onde se projetam as angústias dos viajantes.
Bibliografia:

CARVAJAL, Frei Gaspar de . Relatório do Novo Descobrimento do Famoso Rio Grande descoberto pelo capitão Francisco de Orellana – edição Bilíngüe, São Paulo: Scritta Editorial/Embajada de España, 1992

BARSTOW, Anne Llewellyn. Chacina de Feiticeiras – Uma Revisão Histórica da Caça às Bruxas na Europa, Rio de Janeiro: José Olympio Editora,1995

LIMA, Lezama. A Expressão Americana, São Paulo:Ed. Brasiliense, 1988

NIETZSCHE, Friedrich. Aurora – Reflexões Sobre Os Preconceitos Morais, São Paulo: Cia. Das Letras,2004

----------------------------. A Gaia Ciência, São Paulo: Cia. das Letras,2001

----------------------------. Além do Bem e do Mal – Prelúdio A Uma Filosofia do Futuro, São Paulo:Cia. Das Letras, 1992

SIMÕES, Henrique Campos. As Cartas do Brasil, Ilhéus: Editus,1999

VESPÚCIO, Américo, Novo Mundo – As Cartas Que Batizaram A América, São Paulo: Planeta do Brasil, 2003 .

* Gledson Sousa nasceu em Juazeiro do Norte, Ce, Brasil, em 1972. Desde 1991 vive em São Paulo. Escritor e poeta, publicou O ANTIMIDAS - Poemas - São Paulo, Ed. Jano, 1998 , Martina - Monólogo de Um homem para sua Alma - SP, Ed. Íbis Vermelho,2001 e O Roubo da Alma - Conferência - SP, 2OO3, Ed Autor e Sind. Dos Bancários de São Paulo. Pesquisador da alquimia e das correntes esotéricas, procura a confluências de ambas nas novas formas da psicologia e na filosofia nietzschiana. Publicou, em 2004, O Ovo – Meditações Sobre a Semântica do Mundo. Em 2006 publicou o ensaio O Princípio da Indeterminação Genética, no livro Números e Outras Coisas da Vida, pela editora Apenas Livro Lda, de Lisboa.. É diretor cultural da APCEFSP desde 2005. Tem vários textos em linha no site TRIPLOV.

INICIATIVA:
Centro Interdisciplinar de Ciência, Tecnologia e Sociedade da Universidade de Lisboa (CICTSUL)
Instituto São Tomás de Aquino (ISTA)
www.triplov.org

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